Ainda é necessário dizer “basta”. Em uma sociedade que avança em tecnologia, ciência e comunicação, mas seguimos estagnados em um ponto vergonhoso: a violência contra a mulher. Os casos se acumulam como marcas que o tempo não apaga, revelando um país atravessado pelo machismo estrutural reproduzido por pessoas: filhos, amigas, namorados, maridos, esposas, sogras ou noras.
A história registra nomes que jamais deveriam ser lembrados pela dor: Ângela Diniz, vítima de um feminicida romantizado por parte da sociedade; Carolina Dieckmann, exposta por uma violência digital que atravessou telas; Maria da Penha, que transformou sofrimento em luta coletiva. E mais recentemente, duas professoras que dedicaram suas vidas ao ensino, Allane de Souza Pedrotti Matos e Layse Costa Pinheiro, assassinadas por um colega de trabalho dentro do CEFET-RJ, em um ambiente que deveria representar conhecimento e segurança.
Também há casos em que a violência extrema partiu de mulheres contra outras mulheres, como o assassinato de Gabrielle Bortolon, morta pela amiga que ajudou a planejar o crime, ou o caso brutal de Kelly da Silva Oliveira, assassinada pela própria cunhada em um contexto de disputa e controle. Esses episódios mostram que a agressão não é “sobre gênero contra gênero”, mas sobre uma estrutura social que naturaliza a violência e a desumanização feminina.
Eu mesma vivi as formas silenciosas dessa violência. Saí do mercado corporativo, não por incapacidade, mas para sobreviver ao assédio moral e sexual. Senti o peso de uma estrutura que tenta expulsar mulheres que ocupam espaços de liderança, voz e autonomia. As cicatrizes não aparecem em fotografias, mas moldam trajetórias.
Hoje, entretanto, vivo livre. Reconstruída. Apta a reconhecer e rejeitar qualquer forma de opressão. Minha história é pessoal, mas não única e justamente por isso precisa ser contada. É parte de um retrato maior que exige respostas urgentes.
Dizer “basta” é uma escolha civilizatória. É o compromisso de não normalizar agressões camufladas de ironia, controle, deboche ou autoridade. É recusar assistir ao próximo caso como se fosse inevitável
Não dá mais para aceitar o inaceitável.
Não dá mais para permitir que a violência defina destinos.
Não dá mais para esconder o machismo estrutural sob discursos vazios.
Que cada mulher encontre rede, voz e dignidade.
Que cada pessoa compreenda seu papel na transformação.
E que a sociedade abandone, de vez, a estrutura que sustenta a violência.
Porque nossas histórias importam.
Porque nossas vidas importam.
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