Quando a maré sobe e quebra suave contra as muralhas brancas do Forte de São João, o visitante
quase pode escutar os ecos distantes dos canhões. Essa é uma das cenas mais emblemáticas de
Bertioga, município paulista que abriga a alma viva de um Brasil antigo e um futuro possível.
Onde fica e o que encanta
Localizado no litoral médio de São Paulo, a cerca de 110 km da capital, Bertioga integra a Região Metropolitana da Baixada Santista e exerce encanto singular sobre quem o visita. Com pouco mais de 491 km² e cerca de 50 mil habitantes, é um dos quinze municípios do estado agraciados com o título de Estância Balneária, o que garante recursos extras estaduais para promover o turismo. Suas belezas naturais — 33 km de praias como Enseada, São Lourenço, Itaguaré e Boraceia — atraem famílias, surfistas e amantes da calmaria costeira.
O berço da história militar
Mas Bertioga não é apenas litoral bonito, é território de história pulsante. Muito antes de hotéis, quiosques e ondas virtuosas, o lugar já foi marco estratégico da colonização portuguesa. Foi ali, à beira do canal que separa o continente da Ilha de Santo Amaro (Guarujá), que se ergueu a primitiva fortificação conhecida hoje como Forte de São João, considerada a primeira fortaleza permanente do Brasil.
A gênese do Forte de São João
A gênese dessa fortaleza remonta a meados do século XVI. Em 1531 já se relata a instalação de um “fortim” ou feitoria no local; pouco depois, Martim Afonso de Sousa mandou erguer uma estrutura defensiva para proteger os primeiros assentamentos portugueses da fúria de ataques indígenas e corsários. Em 1560, sob ordem régia, concluiu-se a construção de pedra e cal, com guaritas e muros voltados para o mar. Com o tempo, o forte foi adaptado e rebatizado. Originalmente chamado de Forte de São Tiago, passou a ser conhecido como Forte de São João após uma ressaca marinha provocar danos estruturais e a instalação de uma capela dedicada ao santo.
Séculos de resistência
Atravessou os séculos. Durante a Revolta dos Tamoios, serviu como ponto de passagem para padres e expedições jesuíticas. Em 1563, recebeu os padres Manuel da Nóbrega e José de Anchieta; dois anos depois, dali partiram tropas que ajudaram a expulsar os franceses da Baía de Guanabara. Reformas sucessivas nos séculos XVIII e XIX ampliaram e modernizaram o forte, que em 1940 foi tombado como patrimônio histórico pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Já em 2001, passou por restauração completa e ganhou acervo museológico, tornando-se aberto à visitação pública.
Patrimônio vivo
Hoje, o Forte de São João funciona como equipamento cultural e turístico. A entrada é gratuita e os visitantes contam com monitores especializados de terça a domingo, das 9h às 18h. Exposições recentes, em parceria com o SESC e o IPHAN, unem artefatos indígenas, cenografia interativa e recursos como jogos temáticos e audioguias, aproximando o patrimônio da comunidade. A importância do monumento é tamanha que ele foi incluído na Lista Indicativa da Unesco, ao lado de outras 18 fortificações brasileiras.
Natureza preservada
Mas Bertioga não vive só de passado. O município conserva ecossistemas ricos, como o Parque Estadual Restinga de Bertioga, criado em 2010 para proteger espécies costeiras e manter corredores ecológicos entre o mar e a Serra do Mar. É um símbolo de equilíbrio: o visitante pode caminhar sob o dossel, ouvir o canto do tiê-galo ou vislumbrar pássaros raros, ao mesmo tempo em que contempla o horizonte salgado do litoral.
Cidade entre mundos
Nas ruas estreitas do centro, chega-se ao porto que conecta ao Guarujá por balsa. Já pela estrada SP-98, que liga Bertioga ao interior, percebe-se que a cidade vive entre mundos: o do litoral e o do avanço humano, o do turismo e o da memória.
Um convite atemporal
Com seu forte erguido antes mesmo de muitos núcleos urbanos brasileiros, Bertioga desafia o tempo. É um convite que atravessa o mar, pede um olhar atento e mostra que a história não é um museu imóvel, mas uma corda que nos liga ao futuro.
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