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Carine de Oliveira E A Força Que Nasce Da Decisão De Recomeçar.

Redação
Por: Marcelo Gusmão
16/04/2026 às 11:39 Atualizada em 05/06/2026 às 12:35
Carine de Oliveira E A Força Que Nasce Da Decisão De Recomeçar.

Cabo da Polícia Militar em Volta Redonda, ela encontrou na farda não apenas uma profissão, mas a possibilidade de romper ciclos, inspirar os filhos e mostrar a outras mulheres que é possível mudar de vida. 

Cabo da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. 

Nem toda escolha nasce de um sonho. Algumas nascem da necessidade urgente de sobreviver - e, principalmente, de recomeçar. 

A trajetória de Carine de Oliveira, cabo da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, lotada no 28º BPM, em Volta Redonda, começar assim: não como um projeto de vida cuidadosamente desenhado, mas como uma resposta firme diante de um momento de ruptura. 

"Eu precisava de uma virada de chave, de uma guinada na minha vida", conta. 

Quando a necessidade vira caminho

Criada em um ambiente onde a presença militar já existia na família, a policial cresceu admirando a farda. Ainda assim, seguiu outros caminhos. Formou-se em Educação Física, trabalhou como professora, atuou na prefeitura, construiu uma vida que, por um tempo, parecia estável. 

Até deixar de ser. 

Após um relacionamento que não prosperou, veio a necessidade de independência - financeira, emocionl e prática. Foi nesse contexto que a decisão de ingressar na Polícia Militar deixou de ser uma ideia distante e passou a ser um plano concreto. 

"A corporação representou uma salvação naquele momento de dificuldade", afirma. 

O que começou como necessidade se transformaria, com o tempo, em algo maior: um exemplo. 

Ser mulher onde ainda se precisa provar mais.

Ao ingressar na corporação. Carine encontrou um ambiente ainda marcado pela desigualdade. A época, apenas cerca de 10% das vagas eram destinadas a mulheres. 

O desafio começou antes mesmo do trabalho nas ruas. 

"A gente é treinada para avançar quando todo mundo corre. E, para isso, precisa estar preparada física e mentalmente."

Mas, para além da resistência física, havia uma questão mais silenciosa e igualmente exigente: a identidade. 

"Eu sempre prezei por me impor sem me masculinizar" diz. "Nós somos mulheres policiais militares. E isso precisa permanecer". 

Inspirada por figuras femininas fortes da história, ela construiu sua presença dentro da corporação sem abrir mão da própria essência. Uma força que não se impôe pelo endurecimento, mas pela consistência. 

A maternidade como eixo de tudo

Se a decisão de entrar para a Polícia Militar foi um ponto de virada, a maternidade foi o que sustentou cada passo seguinte: 

Quando iniciou sua formação, sua filha tinha apenas dez anos. O processo, intenso e transformador, exigia não apenas preparo físico, mas uma reconstrução completa da rotina e da identidade. 

"Acredito que não há força maior na vida de uma mulher do que a maternidade", afirma. 

Hoje, a filha segue os passos da mãe em inspiração, estudando em colégio militar e projetando um futuro ambicioso. O filho mais novo, ainda criança, já traduz essa influência de forma simbólica: construiu, com copos descartáveis, uma maquete completa do batalhão onde a mãe trabalha. 

"Meu coração se encheu de alegria", lembra a policial. 

"Ali eu percebi que estou conseguindo ser exemplo."

O impacto das primeiras experiências

Algumas memórias profissionais não se apagam. A primeira ocorrência da policial, logo após concluir o curso, ainda é uma delas.

Ela se deparou com uma mãe tentando entrar em uma unidade prisional com substâncias ilícitas—uma tentativa motivada por vínculos afetivos, que terminou com sua prisão. “

Foi uma situação muito triste”, diz. “Ali eu percebi como nós, mulheres, muitas vezes nos colocamos em situações de vulnerabilidade por causa de relações.”

 A experiência marcou seu olhar. Não apenas sobre o trabalho, mas sobre a sociedade.

Da experiência pessoal ao acolhimento de outras mulheres

Foi essa vivência—dentro e fora da farda—que a aproximou do Instituto Reaja Mulher.

Ao conhecer o projeto, idealizado por KellyGomes, a PM reconheceu ali algo que já havia vivido na própria pele:a importância da autonomia, especialmente financeira, para romper ciclos.

“Consegui quebrar um ciclo na minha vida quando conquistei independência financeira”, afirma.

Hoje, como palestrante no Instituto, ela compartilha sua trajetória para encorajar outras mulheres.A mensagem é clara, direta e construída a partir da própria experiência:

“Você não precisa permanecer na situação em que está. Nós não somos produto das circunstâncias.”

Equilíbrio em meio à intensidade

A rotina policial exige preparo constante. Para manter o equilíbrio, ela recorre àquilo que sempre fez parte da sua vida:o movimento.

Formada em Educação Física, encontra na atividade física uma válvula de escape. “É onde consigo liberar a adrenalina e manter o equilíbrio.”

Além disso, valoriza o tempo com os filhos, viagens simples, idas à praia—momentos que funcionam como pausa em meio à intensidade.

O legado que começa dentro de casa

Ao falar sobre legado, Carine não menciona cargos, conquistas ou reconhecimento público. Fala de algo mais íntimo e duradouro. “Meu maior legado está nos meus filhos”, afirma.

Crescida em uma comunida de de Volta Redonda, ela vê, na mentalidade e nos sonhos das crianças, a confirmação de que o caminho percorrido fez sentido.

“Os vencedores superam as dores”, diz. “O passado fica para trás. Cabeça erguida, olhar firme e esperançoso.”

Nesta última reportagem da série Reaja Mulher, a Revista VP encerra um ciclo de histórias que mostram que o empoderamento feminino não nasce apenas de grandes discursos,mas de decisões silenciosas, firmes e, muitas vezes, difíceis.

 E, na trajetória de Carine de Oliveira, fica claro que recomeçar não é um privilégio—é uma escolha.

 

 

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