Março sempre me convida a olhar para trás.
Não para medir conquistas apenas em números ou títulos, mas para revisitar a mulher que fui em cada fase da minha vida e reconhecer quantas vezes precisei recomeçar para continuar avançando. Empreender nunca foi apenas sobre abrir uma empresa. Para muitas mulheres brasileiras, empreender é, antes de tudo, uma forma de construir autonomia, dignidade e propósito.
Quando iniciei minha trajetória profissional, há quase três décadas, eu não tinha todas as respostas. Tinha sonhos, responsabilidade e uma enorme vontade de fazer dar certo. Como acontece com tantas mulheres empreendedoras, comecei movida pela necessidade de construir um futuro mais seguro para mim e para minha família.
Um acontecimento inesperado acabou se tornando o ponto de virada dessa história. Na época, eu havia sido contratada como contadora-geral da TERECREDI, uma cooperativa de crédito. Estava ali há pouco mais de um ano quando a instituição enfrentou sérios problemas junto ao Banco Central, o que levou à sua liquidação.
Foi nesse contexto que conheci Jomer, o liquidante nomeado pelo BACEN para conduzir o processo da massa liquidada. Apesar de eu ter tido pouco tempo para desenvolver plenamente meu trabalho dentro da cooperativa, ele percebeu minha dedicação e capacidade técnica.
Em uma conversa que mudaria os rumos da minha vida profissional, Jomer me fez uma proposta inesperada: que eu abrisse meu próprio escritório de contabilidade. Para me apoiar nesse início, ele se comprometeria a manter a massa liquidada como cliente durante seis meses, tempo suficiente para que eu pudesse estruturar e impulsionar o novo negócio.
Aquele gesto de confiança foi decisivo. Com coragem, responsabilidade e a certeza de que precisava aproveitar aquela oportunidade, dei o primeiro passo.
Assim nasceu a CLAC Contabilidade.
O que começou como um projeto profissional transformou-se, ao longo dos anos, em uma jornada de crescimento, aprendizado e também de muitas provas de resiliência. Em julho de 2026, a empresa completará 30 anos de existência — um marco que carrega muito mais do que longevidade empresarial. Carrega histórias, desafios superados, pessoas que caminharam ao nosso lado e a certeza de que cada etapa teve seu propósito.
Empreender no Brasil nunca foi simples. Empreender sendo mulher exige, muitas vezes, uma dose extra de coragem. Durante muito tempo, o ambiente empresarial foi marcado por estruturas predominantemente masculinas. Ocupávamos menos espaços de decisão, éramos menos ouvidas e, muitas vezes, precisávamos provar competência repetidamente para conquistar respeito profissional.
Mas o tempo também trouxe transformações importantes.
Hoje vemos cada vez mais mulheres assumindo posições de liderança, abrindo empresas, inovando e gerando impacto econômico e social. Ainda há desafios, é verdade, mas há também uma força coletiva crescente que está redesenhando o cenário do empreendedorismo no país.
Ao longo da minha trajetória, aprendi que nenhuma jornada empresarial acontece separada da vida pessoal. As duas caminham juntas.
Nós, mulheres, levamos para o trabalho nossas emoções, nossos valores, nossa capacidade de cuidar, organizar e construir relações. Durante muito tempo, acreditou-se que essas características eram fragilidades no ambiente corporativo. Hoje sabemos que são exatamente elas que fortalecem lideranças mais humanas e organizações mais sustentáveis.
Na cultura que buscamos construir dentro da CLAC Contabilidade, aprendi que liderar vai muito além de administrar números, processos e resultados. Liderar é desenvolver pessoas. É criar um ambiente onde confiança, ética e respeito sejam princípios inegociáveis.
Empresas verdadeiramente sólidas não se sustentam apenas em estratégias financeiras. Elas se sustentam em cultura organizacional — uma cultura que valoriza pessoas, incentiva crescimento e entende que cada colaborador carrega sonhos e histórias próprias.
Ao longo desses anos, tive a oportunidade de orientar empresários, apoiar decisões importantes e acompanhar o nascimento e crescimento de muitos negócios. E sempre percebi algo em comum: por trás de toda empresa existe alguém que acreditou em um sonho.
Empreender é isso — acreditar antes mesmo de ter todas as garantias.
É assumir riscos calculados, aprender constantemente e desenvolver a capacidade de se reinventar diante das mudanças. Quem empreende sabe que não existe caminho totalmente linear. Há fases de expansão e momentos de reorganização. Há conquistas celebradas e desafios que exigem maturidade e estratégia.
Mas existe algo que sustenta quem decide seguir nesse caminho: propósito. Quando o propósito é claro, ele se torna um norte mesmo nos momentos mais difíceis.
Também aprendi que nenhuma mulher cresce sozinha. Redes de apoio, mentorias e conexões entre empreendedoras têm um poder transformador. Mulheres que incentivam outras mulheres constroem ambientes mais colaborativos e sociedades mais equilibradas.
Empoderamento feminino não significa competir ou ocupar espaços à força. Significa ampliar possibilidades, fortalecer vozes e garantir que cada mulher possa construir sua própria trajetória profissional com autonomia e respeito.
Hoje, ao olhar minha caminhada, vejo muito mais do que uma empresa que se aproxima de três décadas de história. Vejo relações construídas com confiança, equipes que cresceram juntas e a satisfação de contribuir para que outros negócios também prosperem.
E talvez seja esse o maior legado de uma empreendedora: gerar impacto positivo na vida de outras pessoas.
Se eu pudesse deixar uma mensagem neste mês dedicado às mulheres, seria simples e sincera: não espere o momento perfeito para começar. Ele raramente existe.
Comece com aquilo que você tem hoje — conhecimento, coragem, vontade de aprender — e permita que a experiência construa o restante do caminho.
A coragem não aparece antes da caminhada. Ela nasce durante.
E quando uma mulher decide acreditar em si mesma, ela não transforma apenas a própria vida.
Ela abre caminhos para muitas outras mulheres. Creio firmemente nisso.
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