Eu poderia começar esta coluna falando sobre a força da mulher em março. Mas hoje escolho começar falando sobre a nossa vulnerabilidade. Porque, enquanto celebramos, muitas estão tentando sobreviver.
O Brasil segue registrando números alarmantes de feminicídio, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Mulheres continuam sendo assassinadas dentro de casa, por companheiros ou ex-companheiros. O lugar que deveria ser abrigo virou cenário de execução.
E não, isso não é “crime passional”. Isso é poder. É posse. É machismo estrutural.
A Lei Maria da Penha é considerada uma das legislações mais avançadas do mundo. A Lei do Feminicídio reconheceu oficialmente que mulheres morrem por serem mulheres. Mas eu faço uma pergunta que precisa ecoar: se as leis existem, por que continuamos contando corpos?
Porque o problema não é apenas jurídico. É cultural, estrutural e político.
Falta investimento em políticas públicas preventivas. Faltam delegacias especializadas funcionando 24 horas. Falta monitoramento rigoroso de agressores reincidentes. Falta agilidade nas medidas protetivas. Falta educação emocional nas escolas.
Mas, principalmente, falta indignação coletiva.
A violência não começa no tapa. Ela começa no controle.
Começa no “você não vai”.
No “ninguém vai acreditar em você”.
No isolamento.
Na diminuição constante.
O feminicídio é o ponto final de uma história que deu sinais desde o primeiro capítulo.
Não é exagero.
Não é drama.
Não é “mimimi”.
É morte.
Eu entrevisto mulheres todas as semanas. Mulheres que construíram negócios, carreiras, famílias. Mulheres que ocupam espaços de liderança. E muitas delas já viveram algum tipo de violência — silenciosa, invisível, disfarçada.
A violência contra a mulher não escolhe classe social. Não escolhe formação acadêmica. Não escolhe CEP.
Ela escolhe vulnerabilidade emocional e encontra uma cultura que ainda ensina homens que eles podem nos controlar.
Endurecer penas é importante. Mas prevenir é urgente.
Precisamos de políticas públicas que eduquem meninos para o respeito. Precisamos responsabilizar agressores antes que a violência escale. Precisamos de orçamento, estrutura e prioridade real — não apenas discursos em datas comemorativas.
E nós, enquanto sociedade, precisamos parar de perguntar: “O que ela fez?” e começar a perguntar: “Por que ele se sentiu no direito?”
Eu não romantizo março. Eu não suavizo números. Eu não diminuo a gravidade.
Meu microfone não é apenas palco de empreendedorismo feminino. É instrumento de responsabilidade social.
E se você, mulher, está vivendo qualquer forma de violência — psicológica, física, moral ou patrimonial — isso não é normal. Isso não é amor. Denuncie.
Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher.
Funciona 24 horas, é gratuito e anônimo.
Em caso de emergência, ligue 190.
Denunciar pode salvar a sua vida ou a de outra mulher.
Que março seja o mês em que a gente pare de aplaudir flores e comece a proteger vidas. Porque nenhuma mulher deveria precisar sobreviver ao amor. Nenhuma mulher deveria sentir medo — nas ruas, no transporte coletivo, no ambiente de trabalho, dentro de casa.
Nós, mulheres, merecemos respeito, proteção e amparo.
Comece agora a fazer diferente.
E deixo aqui um recado aos homens: por favor, não compactuem com falas que ridicularizem mulheres, que as ofendam ou as diminuam — ainda que seja uma “desconhecida”. O caminho certo começa em você.
Para desejar um feliz Dia das Mulheres, deseje um dia sem registros de violência como os já citados. Esse, sim, será um dia verdadeiramente feliz para todas nós.
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