Quando decidiu prestar concurso para o Corpo de Bombeiros, ainda em 2000, Giselle Bomfim de Lima buscava apenas estabilidade financeira. Não havia, na época, um chamado heroico ou
uma vocação infantil sonhada. Foi a indicação de um conhecido que a levou a fazer a prova e, ao ser aprovada, mergulhar no curso de formação de soldados. O que nasceu como uma
oportunidade prática logo se transformou em paixão: “Passei a apreciar a possibilidade de realmente ajudar as pessoas, a nobre missão de servir ao próximo”, conta. A profissão, que entrou em sua vida quase por acaso, se tornou, desde então, parte inseparável de sua identidade.
De lá para cá, são 25 anos de farda, suor e histórias. Giselle sempre fez
questão de estar na linha de frente, e não restrita aos gabinetes. Combateu
incêndios, atendeu colisões, salvou animais e esteve presente em inúmeros chamados aonde a esperança chegava junto com a viatura vermelha. “O mais gratificante é ouvir das pessoas,
em momentos de desespero: ‘O bombeiro chegou!’”, lembra, com a emoção de quem reconhece no brilho dos olhos aliviados a razão de existir da profissão.
A COMANDANTE QUE CUIDA DOS QUE CUIDAM
Sua trajetória também se desenha em mudanças rápidas. Depois de comandar o grupamento de
Paraty, seguiu para Nova Iguaçu em 2024, onde fez história como a primeira mulher a assumir o
comando do 4º GBM. A passagem, embora breve, deixou marcas: encontrou uma tropa unida e colaborativa. Poucos meses depois, veio a transferência para Resende, onde, desde outubro do mesmo ano, comanda o 23º GBM. “Cada experiência é enriquecedora, e em cada cidade há lições únicas a aprender e a levar adiante”, afirma.
O que Giselle leva de cada comando é uma filosofia simples, mas potente: cuidar dos que cuidam. Para
ela, os bombeiros passam a vida voltados ao próximo e, por isso, precisam também ser olhados com
atenção dentro da corporação. Mantém o gabinete sempre aberto, estimula o diálogo direto e faz
questão de dar voz a todos, do soldado ao oficial. Não por acaso, conquistou respeito não pela patente, mas pelo exemplo. “Sempre priorizei a qualidade do trabalho, buscando a excelência em todas as atividades. O reconhecimento veio da competência e da dedicação.”
Entre tantas ocorrências, algumas cenas se tornam inesquecíveis. A comandante se emociona ao lembrar da criança que não resistiu após uma tentativa de reanimação no quartel de Jacarepaguá — momento que deixou a tropa em lágrimas. Mas também recorda, com sorriso no rosto, a noite em que
precisou capturar um gambá embriagado, que havia bebido bebidas alcoólicas e perfumes. Esses episódios revelam a intensidade de uma profissão que lida diariamente com o inesperado.
LEGADO E INSPIRAÇÃO
Ainda que sua vida seja marcada por emergências e responsabilidades, Giselle aprendeu a reservar tempo para si. Cuida da saúde, valoriza os encontros com amigos e aproveita cada cidade onde passa, seja nadando no mar de Paraty ou conhecendo os restaurantes de Nova Iguaçu. Agora, em Resende, explora lugares como Penedo e Serrinha da Alambari, conciliando o peso do comando com a leveza dos momentos pessoais.
Seu olhar para o futuro vai além das ocorrências diárias. Giselle sonha em estreitar a relação entre o Corpo de Bombeiros e a comunidade, aproximando crianças, famílias e órgãos públicos. Para ela, quanto mais a sociedade compreender o papel da corporação, mais forte será a rede de proteção construída em conjunto.
Às novas gerações, em especial às mulheres que sonham vestir a farda, deixa um recado simples, mas firme: “É possível. Basta acreditar e se dedicar. Com determinação e resiliência, superamos os desafios que surgem no caminho.” Palavras que carregam não apenas incentivo, mas a prova viva de uma trajetória que nasceu de um acaso e se transformou em legado.
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