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Entre O Mar E A Missão

Redação
Por: Marcelo Gusmão
12/12/2025 às 17:59 Atualizada em 10/03/2026 às 09:39
Entre O Mar E A Missão

A trajetória da Capitã Érica Ramalho de Macedo, mulher de fé e coragem que  comanda o Corpo de Bombeiros no Litoral Norte de São Paulo com técnica, empatia e propósito. 

Há quem encontre seu chamado na calmaria. Outros, nas tempestades. A Capitã Érica Ramalho de Macedo, do Corpo de Bombeiros do Litoral Norte paulista, descobriu o dela no encontro entre o mar, o acaso e a fé. Filha de um pedreiro pernambucano e de uma mãe paulista que lhe ensinou disciplina e devoção, Érica cresceu em Caraguatatuba, cercada por histórias simples, mas repletas de sentido. É esse mesmo sentido que hoje move sua atuação à frente das equipes de salvamento que protegem uma das regiões mais desafiadoras e belas do país.

Quando o destino atende ao chamado

A vocação de Érica nasceu antes do fardamento. Surgiu aos 15 anos, quando acompanhava o entusiasmo do irmão, guarda-vidas temporário, que voltava para casa cheio de histórias sobre o mar e sobre vidas salvas. Mas o verdadeiro ponto de virada aconteceu aos 21, quando seu pai sofreu um grave acidente. “Ele caiu de um telhado e fraturou a coluna. Os primeiros atendimentos do Corpo de Bombeiros foram fundamentais para que ele recuperasse os movimentos. Foi ali que percebi que queria retribuir essa graça ajudando outras pessoas”, lembra.

De professora formada em Letras, ela se tornou guarda--vidas temporária e iniciou uma jornada de coragem, resiliência e entrega. A mesma entrega que, anos depois, a colocaria no comando de equipes que operam entre o mar, as encostas e as estradas sinuosas do Litoral Norte.

Liderar é decidir junto

À frente de um comando que exige decisões rápidas e vidas em jogo, a capitã carrega uma filosofia aprendida ainda na Academia de Polícia Militar do Barro Branco: 
“Comandar é decidir em conjunto”. Para ela, o verdadeiro comando começa muito antes da emergência, nasce nos treinamentos diários, no café compartilhado, no respeito e na confiança entre a tropa. 

“Nas ocorrências reais não há tempo para longas discussões. Por isso, a rotina, o diálogo e o vínculo de confiança são essenciais. A humildade é o valor que mais prezo. Ninguém é dono da razão, e o líder que sabe ouvir e pedir ajuda inspira muito mais do que aquele que impõe.”

Entre montanhas, mar e comunicação

Com experiência tanto na capital quanto no litoral, Érica percebeu cedo as diferenças entre realidades. No Litoral Norte, onde o relevo e o acesso desafiam os resgates, ela investiu em integração: treinamentos conjuntos entre equipes terrestres, aquáticas e aéreas, e a modernização do sistema de comunicação, hoje totalmente digitalizado. “A comunicação entre os comandantes passou a ser prioridade. Isso salvou vidas”, afirma.

O compromisso com a prevenção também a levou a criar o perfil oficial corpodebombeiros_litoralnorte, 
nas redes sociais, com o intuito de orientar moradores e turistas. “Acredito que a educação é o caminho para mudar comportamentos e salvar vidas”, diz a capitã, que ainda desenvolve programas como o Salva-Surf e atua pessoalmente em ações educativas com comunidades caiçaras.

A mulher por trás da farda

Fora do quartel, Érica se reconecta com sua essência de forma silenciosa. Católica, é integrante da ordem dos Arautos do Evangelho, frequentando formações e retiros espirituais. “Estar conectada a Deus me mantém consciente das minhas falhas e da necessidade de desenvolver virtudes. É o que me equilibra.”

Competitiva desde criança, ela também encontra no esporte uma válvula de escape. “Sou apaixonada por surf e beach tennis. Já pratiquei alto rendimento, mas hoje busco o esporte como lazer, não como exigência. É onde respiro.”

Desafios, liderança e fé

Ser mulher em um ambiente historicamente masculino nunca foi um obstáculo, mas uma oportunidade. “Cresci cercada de meninos, brincava de igual para igual com meu irmão. Isso me deu resistência e disciplina. No comando, enfrentei desconfiança, sim, mas sempre preferi provar minha capacidade na prática, com humildade e integridade.”

Os maiores desafios, segundo ela, vieram não da tropa, mas de superiores que se incomodaram com sua ascensão. “O ciúme e o ego são destrutivos. Mas sigo com serenidade. Meu foco é servir.”

O legado que quer deixar

Mais do que títulos, como o de Cidadã Caraguatatubense, concedido pela Câmara Municipal, Érica sonha em deixar um legado concreto: a criação de novas bases do Corpo de Bombeiros na Costa Sul de São Sebastião e na Maranduba, região que conhece desde a infância. “Isso reduziria o tempo de resposta e salvaria muitas vidas. É um projeto que defendo com convicção junto às autoridades.”

Mas seu verdadeiro legado talvez esteja nas palavras com que encerra a entrevista:

“Nada é impossível, desde que você realmente queira, persevere e tenha humildade. As  quedas 
virão, mas elas devem nos fortalecer, nunca nos fazer desistir. Quando c hegar lá, lembre--se de onde veio e ajude outros a subir também.”

Entre o dever e o dom

A Capitã Érica Ramalho é o retrato da força que habita na fé, da técnica guiada por propósito e do amor que sustenta o dever. Entre o mar e a montanha, entre o som da sirene e o silêncio da oração, ela segue comandando com coragem e humanidade.

 

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