Conhecido como “O Biólogo das Cobras”, Henrique Chaves transforma desinformação em conhecimento e mostra por que preservar pode ser, literalmente, uma questão de sobrevivência.
Um chamado que vem desde a infância
Desde a infância, quando ainda se encantava com documentários e histórias sobre animais, Henrique Abrahão Chaves já carregava, ainda que sem saber, um destino silencioso. A biologia não foi exatamente uma escolha, mas um caminho que se revelou natural ao longo do tempo. Foi apenas na universidade, porém, que esse percurso ganhou contornos mais específicos, ao apresentar a ele um universo pouco explorado e, para muitos, temido: o das serpentes.
“Descobri um universo completamente novo e fascinante”, relembra.
Hoje conhecido nas redes como “O Biólogo das Cobras”, o biólogo construiu sua trajetória em um campo que exige não apenas conhecimento técnico, mas também coragem e, sobretudo, responsabilidade. Diferente do que muitos imaginam, ele não romantiza o contato com esses animais. Pelo contrário. “Eu, particularmente, nutro grande cautela em relação às serpentes”, afirma.
O medo, segundo ele, é natural, quase instintivo, e faz parte da própria história evolutiva humana. A diferença está na forma como se lida com ele.
Entre o instinto e a informação
É justamente nesse ponto que seu trabalho ganha relevância.
Ao longo de sua atuação como analista ambiental e resgatador de fauna, o especialista percebeu que o maior desafio não está no manejo das serpentes, mas na forma como as pessoas reagem à presença delas. “O resgate em si é a parte mais fácil. A maior dificuldade é impedir que as pessoas matem o animal ou se coloquem em risco”, explica.
Essa constatação revela um problema mais profundo: a desinformação.
Mitos antigos ainda persistem, alguns inofensivos, outros perigosamente letais.
“Nunca faça torniquete, nunca corte, nunca sugue”, alerta, ao se referir a práticas equivocadas em casos de acidentes ofídicos.
A orientação correta, segundo ele, é simples: buscar atendimento médico imediato.
Ainda assim, o desconhecimento continua sendo um dos principais fatores de agravamento desses casos.
Quando a comunicação salva vidas
Se por um lado o medo afasta, por outro, a informação aproxima. É nessa ponte que Henrique atua diariamente, sobretudo nas redes sociais. Ali, ele transforma linguagem técnica em conteúdo acessível, alcançando desde curiosos até profissionais da saúde.
“Recebo relatos de pessoas que evitaram amputações por seguirem orientações corretas”, conta.
Mais do que números, são histórias que revelam impacto real.
Mas o trabalho vai além da conscientização individual.
O impacto invisível da ação humana
Ao observar o avanço urbano e a transformação das paisagens naturais, o analista
ambiental aponta para um cenário preocupante: a perda acelerada de habitat. “A urbanização ocorre em áreas previamente florestadas, resultando na diminuição populacional de diversas espécies”, explica.
Nesse contexto, o aparecimento de serpentes em áreas urbanas deixa de ser exceção para se tornar consequência direta da ação humana.
No Vale do Paraíba, região marcada pela riqueza da Mata Atlântica e, ao mesmo tempo, pela pressão do crescimento urbano, esse equilíbrio se mostra ainda mais delicado. Apesar da biodiversidade expressiva, o cenário exige atenção. “Ainda há uma expressiva área de Mata Atlântica, o que permite a implementação de programas de conservação”, avalia.
A questão, portanto, não é apenas preservar o que resta, mas garantir que ainda haja tempo para isso.
Caminhos possíveis para coexistir
Entre os caminhos possíveis, Henrique destaca a necessidade de ações coordenadas.
Corredores ecológicos, políticas públicas integradas e acordos entre municípios são, para o profissional, fundamentais. “A atuação conjunta é crucial para a efetividade das medidas de proteção ambiental”, defende.
Ainda assim, em meio a dados, alertas e desafios, há espaço para sensibilidade.
Alguns dos momentos mais marcantes de sua trajetória não envolvem serpentes, mas encontros que revelam a fragilidade e a grandeza da vida silvestre. Como o resgate de uma arara debilitada, que ele ajudou a reabilitar. “Ela chegou a aprender meu nome”, lembra.
Histórias como essa ajudam a compreender que, por trás da técnica, existe um olhar atento ao que não pode ser reduzido a números.
Uma conquista que ficou para a história
Entre os capítulos mais marcantes de sua trajetória está a criação do Parque Natural Municipal da Restinga do Barreto, em Macaé, considerada por ele a maior conquista ambiental de sua carreira.
“Gostaria de ressaltar que a criação do Parque da Restinga do Barreto representa, para mim, a maior realização profissional até o momento. Sinto-me profundamente honrado e satisfeito por essa conquista”, afirma.
Na época em que exercia o cargo de Subsecretário de Meio Ambiente, foi designado a identificar uma área para fins de preservação. Entre diferentes possibilidades, chamou atenção a área onde hoje funciona o parque, então vulnerável a invasões e em situação precária.
Em parceria com a bióloga Erika Stigl, iniciou um processo junto ao INCRA, proprietário do terreno à época. A missão parecia improvável. Após reuniões e articulações, veio a confirmação da cessão da área para a criação do espaço de conservação.
Assim nasceu o Parque Natural Municipal da Restinga do Barreto, considerado o maior parque urbano do Brasil dedicado exclusivamente à preservação do ecossistema de restinga, símbolo de que decisões públicas bem conduzidas também podem regenerar paisagens e legados.
O que as serpentes ensinam
No fim das contas, talvez seja essa a principal mensagem de seu trabalho: aprender a
coexistir.
As serpentes, muitas vezes vistas apenas como ameaça, desempenham um papel silencioso e essencial no equilíbrio ambiental, controlando pragas, contribuindo para a agricultura e, em alguns casos, até salvando vidas humanas por meio da ciência. “O veneno de algumas serpentes é utilizado na produção de medicamentos”, explica, citando o caso do captopril.
Entre o medo e o desconhecido, há um espaço que pode — e precisa — ser preenchido pelo conhecimento.
E é exatamente ali que Henrique escolheu estar.
Para quem deseja acompanhar mais do seu trabalho e conteúdos educativos, o biólogo compartilha informações e orientações em seu perfil no Instagram: @biologohenrique.
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