À frente da Delegacia da Mulher em Volta Redonda, ela defende que acolher também é fazer polícia — e que nenhuma mudança é possível sem enfrentar a cultura que naturaliza a violência.
Esta reportagem inaugura a série especial “Reaja Mulher”, da Revista VP, que irá aprofundar, individualmente, a trajetória de mulheres que transformaram dor em ação, medo em coragem e silêncio em mudança.
Quando se fala em combate à violência contra a mulher, é comum que o debate se concentre em números, leis e estatísticas. Mas, na prática, a transformação começa muito antes do inquérito: nasce no acolhimento, na escuta e na compreensão das histórias que chegam quebradas até a porta da delegacia. É nesse território sensível, onde o direito encontra a dor humana, que atua Juliana Montes, delegada da Polícia Civil há 16 anos e, atualmente, à frente da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) de Volta Redonda, vinculada ao Departamento-Geral de Polícia de Atendimento à Mulher (DGPAM).
Curiosamente, o sonho profissional da infância não passava pela segurança pública. “Eu queria ser veterinária”, conta. A mudança de rota veio depois de algumas tentativas frustradas e de um reencontro consigo mesma nas disciplinas de humanas. “Na faculdade de Direito, descobri o Direito Penal e me apaixonei. Ali percebi que queria ser policial.” A decisão, amadurecida ao longo da graduação, revelou-se definitiva.
A delegacia que vai além do inquérito
A trajetória de Juliana pela Polícia Civil inclui diferentes funções e cidades. Antes de se tornar delegada, atuou como oficial de cartório policial. Depois, assumiu titularidades em delegacias do interior do estado, em municípios como Tanguá e Paracambi, onde a violência doméstica já se apresentava como pauta recorrente. Ainda assim, nada se compara à complexidade do trabalho desenvolvido na Delegacia da Mulher.
“O trabalho na DEAM é o mais intenso de toda a minha carreira”, afirma. “Além da investigação e dos procedimentos legais, existe uma forte atuação social.” Palestras, ações educativas, articulação com a rede de apoio e participação em políticas públicas fazem parte da rotina. “É uma delegacia que exige envolvimento humano e acompanhamento constante das políticas voltadas às mulheres.”
Quando o olhar diz tudo
Para a delegada, atender mulheres em situação de violência demanda muito mais do que técnica policial. Exige sensibilidade, preparo emocional e formação específica. “Os crimes de violência doméstica envolvem gatilhos profundos, muitas vezes ligados a traumas de infância. Sem acolhimento, não há justiça”, pontua.
Com pós-graduação em enfrentamento à violência contra mulheres e meninas, ela defende a atuação integrada com psicólogos e assistentes sociais. “As falas chegam carregadas de emoção, de memórias, de culpa. É preciso saber ouvir para interpretar corretamente o que está sendo dito.”
Educar para romper ciclos
Sua presença ativa em eventos, ações comunitárias e entrevistas públicas não é casual. Para ela, a visibilidade é parte da estratégia de enfrentamento. “A violência contra a mulher nasce de uma cultura patriarcal e machista. E a cultura só se transforma com educação, conscientização e prevenção.”
Juliana acredita que ocupar espaços públicos como mulher em posição de autoridade tem impacto direto na sociedade. “Nossa presença fala. Mostra que é possível ocupar lugares de poder e inspira outras mulheres a não aceitarem menos do que dignidade.”
Casos que atravessam fronteiras — e consciências
Entre os episódios mais marcantes de sua carreira está a prisão de um foragido internacional, acusado de estupro na Argentina, que vivia escondido no Brasil havia quase uma década. A operação exigiu meses de investigação, articulação com o Supremo Tribunal Federal e cooperação internacional. “Foi um caso emblemático, não apenas pela complexidade, mas pela resposta que conseguimos dar à família da vítima”, relembra.
Para ela, episódios assim reforçam o papel da polícia como instrumento de reparação simbólica. “A justiça, ainda que tardia, também é uma forma de dizer à vítima que ela não foi esquecida.”
Machismo estrutural e o desafio das políticas públicas
Apesar dos avanços, Juliana é direta ao apontar os entraves. “As políticas voltadas às mulheres ainda são tratadas como secundárias”, afirma. Para ela, o machismo estrutural se manifesta não apenas na violência doméstica, mas também nas esferas política, institucional e econômica. “A representatividade feminina em cargos de decisão ainda é muito pequena. E isso impacta diretamente a alocação de recursos e prioridades.”
A mulher por trás da delegada
Fora da rotina intensa da delegacia, Juliana busca equilíbrio naquilo que chama de refúgio emocional: os animais, a natureza e os afetos. “Meus cachorros são como filhos. Eles renovam minhas energias.” Cachoeiras, praias, música, atividade física e momentos de convivência com amigos fazem parte de sua estratégia pessoal de cuidado. “Sem isso, o peso emocional do trabalho se torna insustentável.”
Uma mensagem que não pode ser silenciada
Para as mulheres que ainda hesitam em denunciar, a delegada deixa um recado firme: “A violência se fortalece no silêncio. A vergonha nunca é da vítima.” Ela reforça a importância de buscar apoio, seja na família, em coletivos ou nos órgãos públicos. “Existe uma rede pronta para acolher. Ninguém precisa atravessar isso sozinha.”
Ao falar sobre legado, sua visão é clara e profundamente humana. “O verdadeiro legado é o bem que fazemos na vida de alguém. Ideias não podem ser silenciadas. Podem tentar calar vozes, mas não apagam a luta.”
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