Fundadora do Instituto Reaja Mulher e idealizadora do ReajaCast, Kelly Gomes transformou a própria dor em uma rede de apoio que hoje inspira, fortalece e devolve dignidade a mulheres em situação de vulnerabilidade.
Alguns projetos nascem de oportunidades. Outros, da urgência. O Instituto Reaja Mulher nasceu de uma promessa silenciosa feita em meio à dor.
Aos olhos de quem acompanha hoje os eventos que reúnem centenas de mulheres no Sul Fluminense, a história pode parecer a de um empreendimento social estruturado, sólido e em expansão. Na essência, porém, tudo começou há mais de 22 anos, no coração de uma jovem que vivia um relacionamento abusivo e não encontrou apoio quando mais precisou.
“Sou sobrevivente dessa experiência”, afirma Kelly Gomes, CEO do Instituto. “Naquele momento, busquei ajuda na igreja, entre amigos e até na delegacia, mas não tive o suporte necessário. Decidi que, se superasse aquela situação, criaria algo para ajudar outras mulheres.”
O Instituto existe formalmente há cinco anos. Sua semente, no entanto, foi plantada muito antes.
Quando a dor encontra direção
Kelly tinha apenas 16 anos quando engravidou pela primeira vez. Aos 17, já era mãe. A vida adulta chegou cedo, acompanhada por responsabilidades, escassez financeira e desafios que testaram seus limites emocionais e físicos.
Ela também enfrentava o luto recente pela mãe, que faleceu aos 46 anos, vítima de câncer.
“Foi a partir dessa experiência que nasceu o Instituto Reaja Mulher”, conta. “Eu sabia que outras mulheres viviam a mesma dor que eu.”
O que poderia ter se tornado apenas uma memória traumática transformou-se em direção. Kelly estruturou um coletivo capaz de oferecer aquilo que ela própria não teve: acolhimento psicológico, orientação jurídica, assistência social, cursos profissionalizantes e encaminhamento para o mercado de trabalho.
“Reiteramos sempre que elas não estão sozinhas”, diz.
Empreender sem patrocínio, mas com propósito
Ao contrário de muitas iniciativas sociais que nascem apoiadas por grandes empresas ou capital político, o Reaja Mulher cresceu a partir da união espontânea de mulheres.
“Conduzir um projeto social sem apoio financeiro ou influência política é desafiador”, admite. “Mas somos movidas por um propósito maior.”
Cada integrante contribui com o que tem: atendimento psicológico, orientação jurídica, cestas básicas, roupas para crianças, tempo e escuta. Trata-se de um modelo sustentado pela confiança mútua e pela convicção de que pequenas ações podem transformar realidades.
Kelly insiste que o impacto não está apenas nos números. “Não importa se você alcança uma ou setecentas mulheres. O que importa é a diferença que você faz na vida de alguém.”
Histórias que atravessam o coração
Entre tantos relatos, alguns permanecem como marcos emocionais.
Kelly relembra o caso de uma mãe com três filhos, incluindo um recém-nascido internado e prestes a passar por uma cirurgia intestinal de urgência. Ao mesmo tempo, a mulher era perseguida pelo agressor, agredida fisicamente e informada de que teria que deixar a casa onde morava.
“Nossa equipe acompanhou tudo de perto. Providenciamos roupas, kits de higiene e acolhimento. Hoje, ela trabalha, sustenta os filhos e tem sua própria casa”, conta Kelly. “É isso que nos move.”
Outra história envolve uma adolescente vítima de bullying devido a uma condição rara que comprometia a formação dentária. O Instituto viabilizou o tratamento completo.
“Ela sempre diz que voltou a sorrir. Isso não tem preço.”
Dar voz também é libertar
A vontade de ampliar narrativas levou Kelly a criar o ReajaCast, espaço dedicado a histórias de superação feminina.
“O ReajaCast nasceu para amplificar vozes”, explica. “Quando uma mulher fala, outras se reconhecem e percebem: eu também posso vencer.”
A seleção das participantes ocorre a partir da identificação com trajetórias de transformação. Não se trata de exaltar a dor, mas de mostrar que a reconstrução é possível.
Fé, família e a mulher por trás da líder
Kelly fala com naturalidade sobre espiritualidade.
“Tenho profunda fé e um grande amor por Jesus. Respeitamos todas as religiões. O acolhimento é para todas.”
Casada há 21 anos, mãe de quatro filhos e avó de três netos, ela equilibra família, liderança social e comunicação com disciplina e gratidão.
“Considero um milagre estar aqui. Quase perdi a vida. Por isso sou imensamente grata.”
Hoje, aos 48 anos, segue estudando na faculdade.
“Por um tempo, dediquei-me integralmente aos outros e negligenciei minhas próprias necessidades. Agora busco equilíbrio.”
O legado que permanece
Ao refletir sobre o futuro, Kelly não fala de cargos ou títulos. Fala de memória.
“Quero ser lembrada como aquela jovem de 16 anos que enfrentou dificuldades, mas perseverou. Como uma mulher que lutou pelo direito de viver em paz.”
Ela acredita que mulheres podem ser tudo o que desejarem: mães, líderes, profissionais, empreendedoras — reinventadas sempre que necessário.
“As mulheres têm o direito de viver. De viver em paz.”
Na série “Reaja Mulher”, que a Revista VP dedica a trajetórias femininas que transformaram dor em ação, Kelly Gomes representa a força que nasce da sobrevivência e se multiplica quando compartilhada.
Ela reagiu. E, ao reagir, construiu um espaço onde outras mulheres aprendem que não nasceram para sobreviver em silêncio — nasceram para viver com dignidade.
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