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Luciene Vignoli Muller: do abandono nas ruas de São Paulo ao palco da escuta

Redação
Por: Marcelo Gusmão
20/02/2026 às 21:32 Atualizada em 10/03/2026 às 17:13
Luciene Vignoli Muller: do abandono nas ruas de São Paulo ao palco da escuta

Autora de “Colo Invisível” e palestrante com duas participações no TEDx, Luciene transforma uma infância invisível em narrativa potente sobre cuidado, responsabilidade social e dignidade humana.

Autora de “Colo Invisível” e palestrante com duas participações no TEDx, Luciene transforma uma infância invisível em narrativa potente sobre cuidado, responsabilidade social e dignidade humana.

Pequenos gestos que impedem o apagamento

Apesar da dureza, houve pequenos gestos que impediram a completa ruptura com o mundo adulto. “Nada contínuo, mas suficiente para me mostrar que nem todo adulto era ameaça.” Entre esses encontros, um se tornou fundante: a bibliotecária Dona Ursulina, da Biblioteca Municipal Álvares de Azevedo, em São Paulo. “Ali, pela primeira vez, fui vista como criança.” O vínculo com os livros não foi fuga, mas abrigo — e, mais tarde, linguagem.

Quando o colo vira palavra

Essa percepção amadureceu na vida adulta e ganhou forma no livro “Colo Invisível”. A obra nasce quando ela entende que sua história ultrapassa o âmbito individual.
“Percebi que o colo que me faltou poderia se transformar em palavra e alcançar quem também cresceu sem amparo.”
A virada acontece durante uma fala em um albergue, ao ouvir homens desejarem sair das ruas. “Ali entendi que minha fala gerava movimento e que eu precisava escrever.”

Escrever sobre ausências que não tinham nome

Escrever, no entanto, não foi simples. O livro inteiro dialoga com a ausência da mãe. “Escrever foi uma forma de dar nome ao vazio, sem negá-lo, e de oferecer a mim mesma o colo que não tive.” Os trechos mais difíceis, diz, foram os que tratam do abandono simbólico — emocional, institucional e social — dores que, à época, “não tinham nome, apenas uma dor difusa”.

A maternidade como régua e reparo

A maternidade, vivida por meio da adoção, reorganizou sua relação com o passado. Ao compartilhar a criação da filha, Luciene descobriu-se mãe mesmo após saber que não poderia engravidar. “Ser mãe ampliou minha compaixão por mim mesma. Hoje, aquela menina tem a mim e pode contar comigo.”
O acolhimento que marcou sua vida adulta veio do marido e da sogra. “Ser vista sem precisar provar nada. O acolhimento verdadeiro não pede currículo da dor.”

Superação não se romantiza

Nas palestras, Luciene é direta ao recusar romantizações. “Dor não é virtude. O sentido vem depois, nunca durante.” Para ela, o compromisso é transformar experiência em consciência e responsabilidade social. “Abandono precisa ser combatido com prevenção, enfrentamento às violências e acesso a direitos.” O trauma, reconhece, deixa marcas. “Não é sentença. O destino muda quando há cuidado, escuta e oportunidade.”

Do invisível ao palco do TEDx

Essa mensagem ecoou em escala ampliada em duas participações no TEDx. A primeira representou “ocupar um espaço de visibilidade mundial” para narrativas como a sua. A segunda, no TEDx da ESMPU, em Brasília, veio com maturidade. “Na primeira, eu queria ser ouvida. Na segunda, eu sabia exatamente o que estava dizendo e para quem.”

Para a palestrante, nada ali é milagre. “É ponte: políticas públicas, pessoas que não desistiram, estudo, preparo, oportunidades e escolhas éticas.”

Projetos, políticas públicas e a bondade concreta

Hoje, seu trabalho se estende a escolas, universidades, empresas e instituições públicas, além da atuação editorial. Os projetos incluem fortalecer bibliotecas como espaços de acolhimento, escrever novos livros e colaborar com políticas públicas voltadas à justiça social.

A síntese do que leva ao mundo cabe em uma frase, que ela repete como compromisso:
“Olhar não significa ver. Sem interesse, não se enxerga.”

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