Entre ervas, memórias e ciência, a herbalista de Pindamonhangaba transforma o conhecimento
ancestral em caminhos de saúde, bem-estar e reconexão com a natureza.
Do parto à botânica: quando o cuidado encontrou a terra
Há algo de ancestral em Lucimara Guimarães. Talvez venha da linhagem de mulheres que, antes dela, já viviam entre ervas, raízes e terra molhada. Talvez seja o modo como ela fala das plantas — com a mesma ternura com que se fala de quem se ama.
Herbalista, botânica e obstetriz formada pela Universidade de São Paulo, Luci, como é conhecida, transformou a própria história em uma ponte entre o conhecimento científico e a sabedoria ancestral. “Minha paixão pelas plantas já existia dentro de mim, apenas adormecida.”
Foi durante os atendimentos de pós-parto, auxiliando mulheres no puerpério, que ela percebeu o poder curativo e simbólico do universo vegetal. A busca por terapias naturais a levou à ginecologia natural e, depois, à pós-graduação em botânica. “O universo das plantas tomou conta do meu coração e reativou aquela memória amorosa de contato com a terra”, relembra.
Botânica no sítio: onde o verde é sala de aula
À frente do projeto @botanicanositio, Lucimara transformou um pedaço de Pindamonhangaba em laboratório vivo. No sítio, ela cultiva uma horta biodiversa com mais de cinquenta espécies — entre aromáticas, medicinais e alimentares — e ministra cursos, oficinas e palestras que unem teoria, prática e sentimento.
“Todo mundo Tem dedo verde. BasTa descoBrir a maneira mais adequada à sua realidade.”
Defensora de uma botânica descomplicada, Lucimara acredita que a natureza está em todos
os lugares — até na cozinha. “Na nossa casa existe um jardim medicinal.
Mesmo desidratadas, trituradas ou em pó, as plantas mantêm seus princípios ativos e estão prontas para serem usados.”
Suas oficinas — como “Introdução ao Cultivo de Plantas Medicinais”, “Quadro Botânico” e
“Preparados Herbais” — nascem desse desejo de criar conexões profundas entre pessoas e
plantas.
O saber que floresce em todas as idades
Ao longo da trajetória, Luci coleciona histórias de encontros que vão de crianças a idosos. “É
impossível escolher apenas uma lembrança”, diz. “Mas o brilho no olhar das pessoas quando
percebem que a natureza está ligada à nossa vida é algo que me alimenta todos os dias.”
“O contato com o verde é um conviTe para o off, para o auTocuidado, para a companhia de si mesmo.”
Entre uma oficina e outra, a herbalista testemunha pequenas transformações: uma avó que volta a fazer chás caseiros, uma criança que planta sua primeira semente, um adulto que redescobre o prazer de cuidar. “Esses gestos simples nos reconectam com o mundo natural e com a gente mesma.”
O desafio de ensinar o verde em tempos de cinza
Lucimara vê nas plantas não apenas um recurso terapêutico, mas um ato de resistência. “Os
saberes populares sobre plantas medicinais estão se perdendo. O chá que antes era feito para
aliviar uma cólica deu lugar ao comprimido”, lamenta.
Ainda assim, ela segue cultivando pontes entre tradição e ciência — e entre a modernidade e o
tempo das estações.
“Podemos usar salto, esmalte e batom, e ainda assim estar conectadas com os ciclos da natureza. Somos cíclicas, como a lua.”
Em suas aulas, ela mostra que a botânica não é exclusividade de quem vive no campo: é uma
forma de viver com mais presença, mesmo em meio ao concreto.
O Vale como raiz
Depois de anos vivendo em São Paulo, Lucimara encontrou no Vale do Paraíba o cenário ideal
para florescer. “Aqui estamos em contato direto com o verde, com o som dos pássaros, com
as plantas que nascem nas calçadas. É possível colher frutas no pé até mesmo na área urbana”,
conta.
Seu sítio em Pindamonhangaba é mais que um endereço, é um símbolo de pertencimento. A
cidade, que celebra o Dia Municipal das Plantas Medicinais em 22 de agosto, representa para
ela o equilíbrio entre tradição e futuro, entre o humano e o natural.
O aroma do legado
“O amor pelo que você faz te diferencia”, diz, convicta. E talvez seja por isso que Lucimara
seja carinhosamente chamada de “rainha das plantinhas”. Seu trabalho é uma alquimia de ci
ência, cuidado e ancestralidade.
Entre tantas espécies, há uma que ocupa um lugar especial em seu coração: o manjericão.
“Abraça o manjericão e respira fundo”, ensina. “Ele traz clareza, harmonia e tranquilidade.”
Luci acredita que a botânica é um aprendiza do contínuo, uma escola que nunca termina. “A
cada dia descubro algo novo. Para quem busca essa reconexão, minha orientação é simples:
comece. Sinta, observe, aprecie, contemple... e nunca esqueça do estudo baseado na ciência.”
Uma colheita de amor e consciência
Entre folhas, aromas e gestos, Lucimara Guimarães traduz o verde em vida. No Vale do Paraíba,
seu legado floresce como quem planta amor e colhe consciência — folha por folha, alma por
alma.
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!