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O alemão que foi o “homem mais rico que já existiu”

Redação
Por: Marcelo Gusmão
20/02/2026 às 21:01 Atualizada em 10/03/2026 às 14:51
O alemão que foi o “homem mais rico que já existiu”

Construtor de uma ampla rede de comércio internacional durante o Renascimento, Jakob Fugger acumulou uma fortuna que, em valores atuais, superaria os bilhões de Elon Musk. Ainda assim, seu legado mais duradouro não foi financeiro, mas social: um complexo habitacional que permanece em funcionamento até hoje.

Seu nome pode não ser amplamente conhecido na atualidade, porém a riqueza que reuniu em vida seria capaz de despertar inveja em superbilionários como Elon Musk, Bill Gates e Warren Buffett — e isso há cerca de cinco séculos. Jakob Fugger (1459–1525) é considerado o primeiro superbanqueiro da história. Conhecido como “O Rico”, ele teria acumulado um patrimônio equivalente hoje a cerca de 400 bilhões de dólares.

No entanto, a relevância de Fugger ultrapassa em muito o volume de sua fortuna.

Nascido em Augsburg, no sul do atual território alemão, o comerciante e banqueiro lançou bases econômicas que ajudaram a moldar a era moderna. “Pode-se dizer que Fugger foi o primeiro a praticar o comércio em escala global”, afirma à DW Greg Steinmetz, autor da biografia The Richest Man Who Ever Lived (“O homem mais rico que já existiu”, em tradução livre), publicada em 2015.

De acordo com Steinmetz, antes de Carlos 5º (1500–1558) — imperador do Sacro Império Romano-Germânico e rei da Espanha — consolidar o domínio europeu sobre a América do Sul, o comércio com outras partes do mundo era limitado. “A Europa mantinha relações comerciais com a Índia, com a atual Indonésia e com a China. Mas a navegação rumo ao Oeste só se tornou viável após Colombo. Se falarmos de comércio internacional, ele existia. Mas comércio global, não, porque apenas metade do mundo havia sido alcançada pelos europeus. Fugger esteve no início dessa transformação”, explica o ex-correspondente do The Wall Street Journal na Alemanha.

Formação na Itália

Jakob Fugger nasceu em uma família próspera de Augsburg, cuja ascensão teve início com seu avô Hans Fugger, um mestre tecelão. Em Veneza, recebeu formação comercial que marcou sua ligação com o Renascimento e o colocou em contato com uma inovação decisiva para sua trajetória: a contabilidade por partidas dobradas, também conhecida como método veneziano. Trata-se de um sistema padronizado de escrituração que até hoje é utilizado por empresas e organizações para registrar transações financeiras.

“Naquele período, não existiam faculdades de economia ou administração. As famílias enviavam seus filhos para aprender um ofício, e os alemães tinham forte presença comercial em Veneza. Fugger foi mandado para lá para trabalhar e aprender o máximo possível. Ele levou esses conhecimentos, incluindo a contabilidade por partidas dobradas, de volta à Alemanha, sendo o primeiro a aplicar esses métodos no país”, explica Steinmetz.

Com isso, Fugger mantinha controle preciso sobre seus recursos, ao contrário de muitos concorrentes que operavam sem registros confiáveis. Além disso, compreendia profundamente o valor da informação. “Ele mantinha agentes em todas as grandes cidades

europeias e também em centros menores da Alemanha. Essas pessoas lhe enviavam informações por correio, a cavalo ou por outros meios. Hoje, informação é tudo — e naquela época também era”, observa Steinmetz. Em certo sentido, Fugger foi um precursor das newsletters financeiras.

“Quem sabia antecipadamente o que estava acontecendo e utilizava isso nos negócios tinha vantagem. Fugger entendeu isso muito bem.”

Credor de imperadores

Após a morte de seus irmãos, Jakob Fugger assumiu sozinho, em 1510, o comando da empresa familiar e manteve a política de conceder empréstimos à dinastia dos Habsburgo, durante os reinados dos imperadores Maximiliano 1º e Carlos 5º.

Como garantia, obteve acesso a minas de prata e cobre, especialmente no Tirol e em áreas que hoje pertencem à Hungria. Fugger não era dono direto das minas, mas detinha direitos de exploração, participações e preferência sobre os minérios extraídos — uma garantia que se mostraria extremamente valiosa.

Naquele período, a Europa dispunha de poucos produtos desejados na Ásia. “A Europa não exportava tecnologia, artigos de luxo ou automóveis, como hoje. Mas possuía metais como prata, ouro e cobre. Foi nesse contexto que Jakob Fugger se destacou”, explica seu biógrafo.

Cobre para o mundo

Segundo Martin Kluger, autor de diversos livros sobre a história da família Fugger, a Índia era então tecnologicamente e economicamente superior à Europa, o que impulsionou os negócios do banqueiro alemão. “Por isso, o cobre era escasso e extremamente demandado. Para o conglomerado minerador dos Fugger, isso acabou sendo uma coincidência muito favorável”, afirma Kluger, diretor da Context Verlag, editora sediada em Augsburg e Nurembergue.

“Outra coincidência foi a descoberta, por Vasco da Gama, da rota marítima para a Índia em 1498, pouco depois de os Fugger terem iniciado a extração de cobre em Neusohl (atual Banská Bystrica, na Eslováquia), em 1495. O cobre estava mais valorizado do que nunca. De repente, eles possuíam estoques cujo valor havia se multiplicado”, explica Kluger.

Na Europa, a demanda por cobre também crescia, impulsionada pela construção de navios, canhões, utensílios domésticos e telhados de palácios urbanos e edifícios religiosos. Para Kluger, os Fugger foram quase “obrigados” a ingressar no setor de mineração, já que os Habsburgo e o rei da Hungria tinham dificuldades para saldar dívidas de outra forma e, por isso, concederam direitos de extração. “A alta nobreza não era especialmente habilidosa nos negócios, o que acabou beneficiando os Fugger”, avalia.

O fato de Fugger não ter sido descartado por seus poderosos devedores — nem ter enfrentado calotes sistemáticos — se explica, segundo Greg Steinmetz, por seu “grande talento”. “Ele sabia que precisava se tornar indispensável para sobreviver. Precisava ser a única pessoa à qual imperadores e príncipes pudessem recorrer para obter dinheiro rapidamente. O imperador Maximiliano estava constantemente em guerra e precisava pagar mercenários; caso contrário, eles voltariam para suas aldeias”, relata.

“E quem conseguia fornecer dinheiro com rapidez quando Maximiliano precisava era apenas Fugger”, completa o biógrafo.

O legado de Fugger

Como banqueiro, Fugger promoveu mudanças profundas no sistema de crédito ao convencer o papa a flexibilizar a proibição eclesiástica da cobrança de juros. A prática deixou de ser automaticamente punida entre cristãos. A razão era pragmática: “Fontes da época, inclusive do Vaticano, indicam que não era segredo que o próprio papa também apreciava obter rendimentos elevados — independentemente da proibição formal”, afirmou o historiador econômico Lars Börner à rádio Deutschlandfunk.

Em contrapartida, Fugger passou a participar das receitas do clero, inclusive do controverso comércio de indulgências, que financiou a construção da Basílica de São Pedro, em Roma, e acabou provocando a reação de Martinho Lutero.

“Podemos discutir como ele modernizou as finanças, como viabilizou o crédito com juros, como ajudou os Habsburgo a conquistar metade do mundo ou como, involuntariamente, contribuiu para a Reforma ao irritar Lutero. Mas o que realmente permanece é seu projeto habitacional em Augsburg, conhecido como Fuggerei. Sem ele, provavelmente apenas historiadores falariam de Fugger, pois se trata do primeiro projeto de habitação social do mundo”, destaca Steinmetz.

A Fuggerei existe até hoje. Seus moradores pagam, simbolicamente, o mesmo aluguel de 500 anos atrás — hoje inferior a 1 euro por ano. As casas são consideradas referência em habitação social, e a única exigência é que os residentes rezem três vezes ao dia. Pessoas de diversas partes do mundo visitam o conjunto, que se tornou o símbolo mais visível do legado de Fugger.

Historiadores estimam que a fortuna de Jakob Fugger teria variado entre 300 e 400 bilhões de dólares (de 1,6 trilhão a 2,1 trilhões de reais). Dependendo do critério adotado, isso representaria entre 2% e 10% da economia europeia da época — proporção superior à dos bilionários contemporâneos, como Elon Musk ou Jeff Bezos, em relação à economia dos Estados Unidos.

Além disso, as fortunas dos super-ricos atuais oscilam significativamente conforme o desempenho de suas empresas no mercado financeiro. Assim como Fugger, Bill Gates — que já foi o homem mais rico do mundo — administra seu legado por meio de uma fundação. Ainda assim, o historiador Boris Gehlen, da Universidade de Stuttgart, avalia que os bilionários de hoje provavelmente terão menor relevância histórica. “O legado deles não será tão significativo quanto o de Fugger”, conclui.

 

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