Há um horário na Via Dutra em que o Vale do Paraíba parece segurar a respiração. A neblina se deita baixa, as montanhas da Mantiqueira desenham uma linha de sombra ao longe, e o fluxo de carros, esse rio metálico e contínuo, segue em direção a dois ímãs naturais do Brasil: São Paulo e Rio de Janeiro e entre eles está o Vale do Paraíba. Para quem vive e empreende na região, essa estrada nunca foi apenas um caminho. Sempre foi economia, oportunidade e, cada vez mais, turismo.
É exatamente nesse ponto de encontro, entre deslocamento e destino, que a gestão de Gustavo Tutu-
ca, secretário de Estado de Turismo do Rio de Janeiro, ganha uma leitura especial para o Vale do Paraíba.
Tutuca, “cria do Sul Fluminense”, formado em Análise de Sistemas e com origem política-administrativa ligada a Piraí, carrega uma visão que começa fora da capital: a de que o estado só cresce de verdade quando o interior deixa de ser pano de fundo.
Na entrevista concedida para a Revista VP, ele definiu a marca da sua gestão em três palavras: interiorização, integração e resultado. É um trinômio que, traduzido para o Vale do Paraíba, funciona como uma chave: o turismo do Rio deixa de depender exclusivamente da cidade do Rio e passa a se conectar com rotas, experiências e economias regionais, muitas delas “coladas” no cotidiano do corredor Dutra.
A lógica da interiorização aparece quando o governo trata o estado como um mosaico de 12 regiões turísticas, com identidade e governança próprias, e não como uma vitrine única.
Para o Vale do Paraíba, esse reposicionamento é particularmente relevante porque uma das regiões mais estratégicas do turismo fluminense é justamente a que faz fronteira natural com São Paulo e Minas: Agulhas Negras.
Composta por Resende, Itatiaia, Porto Real e Quatis, Agulhas Negras é descrita como região vizinha a SP e MG, cortada pelo eixo da Dutra, um desenho geográfico que transforma o Vale do Paraíba em porta de entrada prática para um turismo de natureza, bem-estar e gastronomia.
Em outras palavras: quando o Rio fortalece o interior, o Vale do Paraíba sente primeiro, porque está no caminho e, muitas vezes, faz parte da decisão do viajante (parar, esticar, retornar, pernoitar, criar roteiro).
Tutuca sustenta a ideia de “resultado” com indicadores.
Em dezembro de 2025, por exemplo, o Estado apresentou um dado forte: até outubro, 1.796.520 turistas estrangeiros, alta de 48% ante o mesmo período de 2024, com projeção de superar a marca de 2 milhões.
No campo econômico, um estudo do IFec-RJ/Fecomércio RJ estimou R$ 10,6 bilhões em gastos diretos e 198 mil empregos gerados ou sustentados pelo turismo no estado.
Para uma revista de negócios, isso muda o tom do debate: turismo deixa de ser “setor de lazer” e se afirma como indústria transversal, com impacto em serviços, comércio, logística, eventos, cultura e cadeia rural.
A segunda palavra-chave de Tutuca é integração, e ela importa porque turismo não se faz sozi-
nho. Governo, prefeituras, trade, segurança, infraestrutura, cultura e meio ambiente precisam operar como engrenagens que conversam.
Essa lógica aparece em iniciativas que aproximam mercado e produto turístico de forma concreta.
Um exemplo direto para o Vale do Paraíba é o roadshow “Experiência Rio de Janeiro”: em 2025, o projeto percorreu 14 cidades e capacitou cerca de 2.100 agentes de viagens; entre as cidades visitadas, está São José dos Campos, ou seja, o turismo fluminense sendo “vendido e explicado” dentro do próprio Vale.
O objetivo é claro: fazer o agente e o operador enxergarem o Rio inteiro (não apenas a capital) e, assim, criarem prateleira para destinos que historicamente ficaram fora do radar.
Outra evidência de interiorização com método é a ExpoRio Turismo em Agulhas Negras, realizada na região e descrita como encontro que reúne os quatro municípios e o trade local, com espaço para empreendedores, artesãos e produtores.
Para o Vale do Paraíba, isso tem um efeito prático: o que antes era “visita eventual” tende a virar produto estruturado, com calendário, narrativa, integração regional e visibilidade ampliada. E produto estruturado é o que transforma turismo em receita constante, não em pico.
Quando um destino próximo e complementar se organiza,
o Vale do Paraíba não perde turista, ele ganha possibilidades de roteiro integrado. Na prática, surgem oportunidades claras para empresas e profissionais da região:
• Agências e operadoras: construção de “circuitos curtos” (2 a 4 dias) combinando Mantiqueira, Dutra e Agulhas Negras — com foco em experiência e não apenas deslocamento.
• Hotelaria e gastronomia: pacotes de fim de semana, eventos corporativos e experiências temáticas (café, vinho, rotas rurais, natureza) com público que já transita pelo eixo.
• Economia criativa: artesanato, música, festivais e turismo de base comunitária como parte do produto — especialmente quando há vitrine e agenda.
• Turismo de negócios: a Dutra é corredor industrial; o turismo, quando bem operado, vira extensão natural de feiras, visitas técnicas e convenções.
Esse é o ponto mais interessante da entrevista de Tutuca:
ele não fala do turismo como “cenário”; ele fala como política pública que gera fluxo, emprego e renda, e isso, para o Vale do Paraíba, é uma conversa sobre desenvolvimento regional.
Há algo coerente no fato de um gestor com origem no interior insistir em reposicionar o estado como destino completo. Não se trata de negar a força da capital, ela continua sendo porta, vitrine e ícone, mas de transformar essa porta em passagem, e não em fim de linha.
Para o Vale do Paraíba, essa estratégia é particularmente promissora porque opera no território real do corredor Rio–São Paulo: onde o turismo acontece por proximidade, por repetição, por facilidade de acesso, e, quando bem estruturado, por desejo.
Se o turismo é, como defende Tutuca, uma indústria que movimenta dezenas de setores, então o Vale do Paraíba tem diante de si uma janela rara: ser apenas rota de passagem ou se consolidar como hub de conexões, entre destinos, experiências e economias, No fim, o Vale do Paraíba não precisa pedir licença para entrar no futuro do turismo fluminense, ele já está nele, por geografia, por vocação e por força econômica. O que a gestão de Gustavo Tutuca sinaliza é que, desta vez, o interior não será apenas cenário: será estratégia. E estratégia, quando bem executada, vira oportunidade concreta para quem está pronto. Para empresários, gestores públicos, operadores e empreendedores da região, a mensagem é simples e exigente: organizar produto, qualificar serviço, criar calendário, integrar rotas
e vender experiência com consistência. Porque o fluxo que passa pela Dutra não é apenas trânsito; é demanda em movimento. E, quando o Rio aprende a contar o próprio mapa inteiro, o Vale do Paraíba pode deixar de ser “caminho entre dois destinos” para se tornar, finalmente, um destino inevitável. No momento em que o Rio decide, com método, que o interior não será mais coadjuvante.
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