Fome, guerra, violência urbana, até mesmo o superaquecimento global –esses são apenas alguns dos problemas que a humanidade vem enfrentando–vetores consequentes da cobiça desenfreada, da materialidade fútil,da política sem escrúpulos,do egoísmo em seu esplendor. Esse é o mundo do novo milênio:uma sociedade sem alma. Bem-vindos à vida mais selvagem de todos os tempos, a vida urbana.
A sensibilidade vem perdendo espaço para a frieza do espírito.Com um quarto do século 21 já vivido, pode--se dizer que a humanidade se tornou mais calculista e menos humana. A impressão que passa é de que o bem vem perdendo espaço na luta contra o mal.
Mas não é verdade.
Essa impressão tem uma razão de ser: um único homem mau já faz muito barulho. A maldade é escandalosa aparece e ecoa entre todos. A bondade não. Apenas a publicidade de uma maldade, já causa um mal enorme em nós-e o ser humano gosta de replicar a malignidade, com a desculpa de que a intenção é ensinar, alertar os demais a não incidirem no erro. Em muitas ocasiões realmente as criaturas estão imbuídas desse ânimo mesmo, mas em outras propagam o mal impulsionadas unicamente pelo sa dismo inerente ao caráter apequenado do interlocutor propagador.
Então, porque a “fome, a guerra e a violência urbana”, citados inicialmente como exemplos dos problemas da sociedade moderna, só crescem? Infelizmente isso tem uma razão de ser: os psicopatas–são eles que dominam o mundo.
As pesquisas científicas mais otimistas e conservadoras, revelam que, em cada vinte pessoas, pelo menos uma delas é psicopata.Entre os homens de poder, esse número pode chegar a um psicopata para cada quinze indivíduos.
Quando se ouve na linguagem do povo que vivemos numa sociedade psicopata, não está de todo errado–é a sabedoria popular.
Se o número é mais crítico conforme se sobe na hierarquia do poder, no primeiro escalão do poder é onde, em tese, se concentra o maior número de sociopatas. São eles que ditam as leis, eles que estão no comando.É natural que a sociedade venha a refletir a frieza própria daqueles desprovidos de consciência. São estabelecidas regras de conduta social impiedosas, patrocinadas por interesses obscuros e longe de qualquer critério de justiça social. O mundo é deles, dos seres portadores de transtorno da personalidade antissocial e por isso não está errado dizer que vivemos numa socieda de psicopata.
É curioso, mas a psicopatia não é tratada como uma doença mental e sim como um transtorno de personalidade.Realmente, não deve ser considerada doença, pois não faz mal algum ao portador des- se transtorno,mas faz a todos os demais que o cercam.
A psicopatia é um transtorno mental comum, caracterizado por traços de personalidade que incluem egocentrismo, falta de empatia e remorso, além de comportamento antissocial com dificuldade de inibir ações prejudiciais às pessoas. Eles não são dotados de consciência, por isso que nunca sentem remorso.Não lhes “pesa a consciência”, porque ela inexiste em um sociopata. Essa criatura não tem a capacidade de se colocar no lugar da outra. Não sente compaixão–não tem como medir o sofrimento alheio, sendo absolutamente indiferente a ele.É por isso que ele não sofre o transtorno, quem sofre são os demais.
Os psicopatas podem enganar, manipular, explorar, ameaçar, roubar ou agredir fisicamente outras pessoas. Ao mesmo tempo, eles podem parecer externamente amigáveis e bem ajustados quando querem atingir um objetivo.Essas características tornam o transtorno difícil de ser identificado.
Os mais desavisados creem que o sociopata é aquele assassino em série caricaturado no cinema e que só pessoas como o Maníaco do Parque são portadoras desse transtorno mental.Ao contrário,na grande maioria das vezes o psicopata não é um“criminoso insensível”e se quer é agressivo, como no imaginário popular.De fato, ele é muito pior–ele é um monstro, mas se comporta com todo o equilíbrio e lucidez de uma pessoa normal, ainda que sem qualquer empatia por nada ou por ninguém.
Um psicopata não tem capacidade de amar.Quando ele mesmo jura que está amando alguém, na verdade o que ele sente é“posse”.Ele não sabe o que é amar. Já por consequência da incapacidade de amar e de se apegar às pessoas, outro traço de transtorno de personalidade antissocial é a falta de lealdade, pois eles costumam desvalorizar e substituir os outros com facilidade, já que não se apegam. Mentem constantemente e muitas vezes sem qualquer razão para mentir. Porfim,outro traço desse diabólico transtorno mental é oegocentrismo—querer que as pessoas fiquem em constante competição pela sua atenção, promovendo intrigas e manipulando todos em sua volta. Assim são algumas pessoas que chegam no topo do poder.
Um psicopata pode ser um colega de trabalho, um amigo ou um membro da família. Eles estão entre nós.O tratamento das características psicopatas na juventude costuma ser mais promissor do que na vida adulta,e os traços de psicopatia costumam diminuir ou desaparecer ao longo da vida.
Os traços psicopáticos variam de leve a extremo. A psicopatia não tem cura, mas pode ser tratada. O tratamento do transtorno inclui várias abordagens de forma simultânea, como a psicoterapia,o treinamento de habilidades comportamentais e o reconhecimento dos papéis da família, da escola,de colegas e da comunidade.Dependendo da situação concreta o tratamento com remédios também pode ser indicado. A terapia sempre melhora as habilidades socio afetivas do indivíduo, o que aprimora o seu convívio social. Como o termo“narcisismo”andou na moda pelas redes sociais,é conveniente apenas esclarecer que narcisista e psicopata são personalidades diferentes, com características e comportamentos distintos.No entanto,é possível que alguém tenha os dois transtornos, o que pode dificultar a distinção entre os sintomas. É um ser que comete as maiores atrocidades, mas que domina seus traços psicopáticos–um lobo em pele de cordeiro.O que não é justo com os lobos, porque eles amam.São leais, protegem e respeitam os mais velhos da matilha. Enfim, um forte abraço–seja você uma pessoa normal ou um psicopata.
CARLOS MAGGIOLO
Advogado Criminalista, Professor de Direito Penal e Jornalista.
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