Após vencer na Justiça a disputa pela curatela do pai com Alzheimer, Janna Neves transformou dor familiar em missão de cuidado, informação e defesa da dignidade da pessoa idosa.
A vida de Janna Neves nunca seguiu um roteiro previsível. Formada em Publicidade e Propaganda, construiu uma trajetória profissional que passou pela comunicação e pela inspeção técnica em obras de gasodutos e minerodutos. Inquieta, disciplinada e determinada, ela sempre gostou de assumir com responsabilidade tudo aquilo que faz. Mas nenhuma experiência anterior a prepararia para o desafio mais profundo de sua vida: cuidar do próprio pai após o diagnóstico de Alzheimer.
Natural de Barbacena (MG), Janna sempre transitou entre diferentes áreas. Ainda jovem, fundou o jornal “Olho Clínico”, voltado à área da saúde, unindo comunicação e informação qualificada. Mais tarde, atuou por anos como inspetora técnica de dutos, função que exigia rigor, organização e atenção a protocolos. Hoje, ela percebe que parte dessa formação técnica se refletiu na forma como conduz o cuidado do pai.
“Hoje percebo que essa formação influencia diretamente a forma como cuido dele: organização de rotina, controle rigoroso de medicação, observação de sinais clínicos e tomada de decisões com base em orientação médica”, conta.
A decisão difícil
O ponto de virada veio quando Janna percebeu que algo não estava bem. As conversas com o pai se tornaram raras e sempre havia justificativas para que ele não falasse ao telefone. A suspeita transformou-se em alerta após uma denúncia de negligência.
“Naquele momento, compreendi que não era apenas uma questão afetiva — era uma questão de proteção de direitos”, explica. Com o avanço do Alzheimer, seu pai já apresentava desorientação temporal e dificuldade de julgamento, o que o tornava juridicamente vulnerável.
A solução foi ingressar na Justiça com um pedido de alteração de curatela, já que a ex-cônjuge de seu pai havia obtido anteriormente a interdição e assumido a função de curadora. O processo foi doloroso, mas necessário. Ao final, a decisão judicial reconheceu que ele precisava de um ambiente seguro e acompanhamento adequado.
Hoje, o pai vive com ela e suas filhas em Paraty, onde a rotina familiar precisou ser completamente reorganizada.
Uma casa adaptada ao cuidado
Quem Cuida Também Precisa De Cuidado
No Brasil, o cuidado com idosos dependentes ainda recai majoritariamente sobre familiares — especialmente mulheres.
Entre os principais desafios enfrentados por cuidadores familiares estão:
• Sobrecarga física e emocional
• Privação de sono
• Isolamento social
• Impacto na carreira profissional
• Risco aumentado de ansiedade e depressão
Especialistas alertam que buscar rede de apoio, acompanhamento psicológico e orientação médica é fundamental para evitar o esgotamento do cuidador.
Quando o idoso chegou, estava na fase leve a moderada da doença. A casa passou por adaptações para garantir segurança e estimular a autonomia possível: retirada de tapetes, melhoria na iluminação, rotina estruturada e controle rigoroso da medicação.
Conversas, músicas antigas e fotografias ajudam a estimular a memória afetiva.
Pequenas caminhadas assistidas e exposição ao sol fazem parte da rotina.
Mas o cuidado vai muito além das adaptações físicas. Envolve vigilância constante, observação de sintomas, prevenção de quedas e acompanhamento médico frequente.
“O maior desafio é viver o luto progressivo. A pessoa está fisicamente presente, mas cognitivamente se afasta. É assistir alguém que você ama perder memórias, identidade e referências”, diz Janna.
Ainda assim, ela faz questão de lembrar que emoção também faz parte do processo.
“Eu me permito sentir. Eu choro, sim. Porque é amor. E amor não é fraqueza.”
A voz que nasceu nas redes
Desde 2019, quando o pai passou a viver com ela, Janna começou a compartilhar sua rotina nas redes sociais. Durante a pandemia, o isolamento intensificou essa presença digital. O que começou como relato pessoal tornou-se um espaço de orientação e acolhimento.
“Percebi que muitas famílias estavam perdidas e se sentiam sozinhas”, afirma.
Hoje, milhares de pessoas acompanham suas publicações em busca de informação sobre Alzheimer, direitos do idoso, organização da rotina e sinais de alerta da doença.
Quem quiser acompanhar esse trabalho e conhecer mais de perto essa jornada pode segui-la no Instagram, no perfil @eujannaneves.
Embora não seja profissional de saúde, faz questão de enfatizar que seu conteúdo se baseia em estudo, orientação médica e experiência concreta.
Cuidar também é política pública
Ao falar sobre Alzheimer, Janna amplia a reflexão para além da experiência familiar.
Para ela, a doença revela um desafio estrutural de saúde pública, que exige políticas de cuidado de longa duração e suporte real aos cuidadores familiares.
“O cuidado ao cuidador precisa ser reconhecido como eixo estruturante das políticas públicas”, defende.
Isso porque, no Brasil, o cuidado prolongado com idosos ainda recai majoritariamente sobre mulheres da família — muitas vezes sem apoio psicológico, suporte técnico ou proteção social adequada.
Amor, técnica e humanidade
Entre protocolos, medicações e rotinas rigorosas, a mãe e cuidadora ainda encontra espaço para pequenos momentos de humanidade — e até humor.
“Eu costumo dizer que fiz Publicidade, trabalhei com inspeção de dutos e enfrentei processo judicial… mas nada me preparou para o verdadeiro desafio técnico da minha vida: encontrar cinco minutos para tomar um café quente”, brinca.
Hoje, mesmo quando o pai já não consegue mais falar, ela continua conversando com ele.
“Ele pode não responder em voz alta, mas eu aprendi que amor não precisa de resposta para existir.”
Uma lição silenciosa, mas poderosa, sobre dignidade, cuidado e humanidade em tempos de envelhecimento da população e de desafios cada vez maiores para as famílias brasileiras.
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!