°C °C
Taubaté, SP

Quando Mulheres se Unem, O Silêncio Perde Força.

Redação
Por: Marcelo Gusmão
13/01/2026 às 16:24 Atualizada em 10/03/2026 às 21:56
Quando Mulheres se Unem, O Silêncio Perde Força.

Empoderamento feminino, redes de apoio e a reconstrução de vidas marcadas pela violência

O empoderamento feminino deixou de ser apenas um conceito e passou a ocupar o centro de debates urgentes no Brasil. Em meio a estatísticas alarmantes de violência doméstica, abusos e feminicídios, surgem também histórias que apontam para outro caminho: o da reconstrução possível quando mulheres se apoiam, se escutam e se fortalecem coletivamente. Em Volta Redonda, no Sul Fluminense, esse movimento ganha rosto, voz e ação concreta por meio de mulheres que, de lugares distintos, atuam em uma mesma direção: romper ciclos de violência e devolver dignidade a quem teve sua história atra-
vessada pela dor.

Essa rede é formada por trajetórias como a da policial militar Carine de Oliveira, da idealizadora do Instituto Reaja Mulher, Kelly Gomes, e da delegada Juliana Montes, que atua na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) e integra o Departamento Geral de Polícia de Atendimento à Mulher (DGPAM). Três histórias, três campos de atuação, mas uma mesma convicção: nenhuma mulher deve atravessar a violência sozinha.

A farda como recomeço

A entrada de Carine de Oliveira na Polícia Militar não nasceu de um desejo de status ou vocação

precoce. Veio da necessidade. Após um casamento que não prosperou e diante da urgência de autono-
mia financeira, ela encontrou na corporação uma possibilidade de recomeço. “A Polícia Militar representou, na verdade, uma salvação naquele momento de dificuldade. Eu precisava de uma virada de chave na minha vida”, afirma. Carine de Oliveira.

Ser mulher em um ambiente historicamente masculino exigiu preparo físico, emocional e postura firme. Ainda assim, Carine fez questão de não abrir mão da própria identidade. “Sempre prezei por me impor sem me masculinizar. Somos mulheres fortes, e isso não precisa ser apagado”, diz. Mãe de dois filhos, ela carrega a maternidade como força motriz. “Não há força maior na vida de uma mulher do que a maternidade. O exemplo arrasta”, resume.

Essa vivência pessoal é o que a conecta ao Instituto Reaja Mulher, onde atua como palestrante. “Consegui romper um ciclo quando conquistei minha independência financeira. Hoje, posso dizer a outras mulheres que é possível sair de situações desconfortáveis”, afirma. Em suas falas, a mensagem é direta: a mulher não é definida pelo trauma que viveu, mas pela capacidade de agir e reconstruir a própria história.

Da dor individual ao acolhimento coletivo

A história do Instituto Reaja Mulher se confunde com a trajetória de sua fundadora. Kelly Gomes é sobrevivente de um relacionamento abusivo e decidiu, ainda jovem, que transformaria sua dor em propósito. “Quando vivi a violência, busquei ajuda e não encontrei. Fiz uma promessa: se eu sobrevivesse, criaria algo para ajudar outras mulheres”, conta. O Instituto existe há cinco anos, mas
nasceu no coração dela há mais de duas décadas.

Hoje, o Reaja Mulher oferece acolhimento psicológico,

orientação jurídica, assistência social e apoio para reinserção no mercado de trabalho. É uma rede construída sem apoio financeiro institucional, sustentada pela união de mulheres que doam tempo, conhecimento e afeto. “Cada uma contribui com o que tem. É assim que seguimos”, explica Kelly.

As histórias que passam pelo Instituto são, muitas vezes, extremas. Kelly lembra de uma mãe recém-parida, perseguida pelo agressor, com a filha internada em estado grave, que encontrou no Reaja o primeiro amparo. “Hoje ela sustenta os filhos, tem sua casa e reconstruiu a vida. É isso que nos move”, relata.

Esse mesmo espírito se estende ao ReajaCast, apresentado por Kelly, onde mulheres compartilham trajetórias de superação. “O objetivo é amplificar vozes femininas. Quando uma mulher fala, outras se reconhecem e percebem que também podem vencer”, afirma.

A lei, o acolhimento e a escuta

Na ponta institucional, a delegada Juliana Montes atua há 16 anos na Polícia Civil e, há dois, está à frente da DEAM em Volta Redonda. Para ela, o atendimento à mulher em situação de violência vai muito além da investigação. “É imprescindível o acolhimento. Muitas falas vêm carregadas de traumas antigos, de infância. Sem escuta qualificada, não há justiça possível”, afirma.

Juliana destaca que a atuação da Delegacia da Mulher exige envolvimento social, articulação com políticas públicas e diálogo constante com a rede de apoio.

“Instituições como o Reaja Mulher são fundamentais. Elas acolhem, fortalecem e ajudam a mulher a dar os próximos passos”, diz.

Casos emblemáticos marcam sua trajetória, como a prisão de um foragido internacional acusado de estupro.

Ainda assim, ela reforça que a maior batalha é cultural. “A violência contra a mulher nasce de uma estrutura machista. Educação, conscientização e prevenção são o caminho mais eficaz”, defende.

Para as mulheres que ainda hesitam em denunciar, a mensagem é firme: “A violência se fortalece no silêncio. Procurem ajuda, conversem com outras mulheres, usem a rede de apoio. A vergonha nunca deve ser da vítima”.

Uma corrente que se fortalece

Entre a farda, o acolhimento social e a autoridade institucional, forma-se uma corrente de apoio que transforma realidades. “Podem tentar silenciar pessoas, mas não conseguem apagar ideias”, afirma Juliana. Kelly complementa: “Não importa se você alcança uma ou setecentas mulheres. Se mudou uma vida, já valeu”.

Carine, por sua vez, traduz esse movimento em exemplo diário. “Os vencedores superam as dores. O passado fica para trás, e o foco é o futuro”, diz.

Em um tempo em que a violência insiste em calar, essas mulheres mostram que a união é, talvez, a resposta mais poderosa. Porque quando uma mulher reage, muitas outras aprendem que também podem.

Onde acompanhar essas histórias de perto

• Carine de Oliveira (Polícia Militar – 28o BPM) Instagram:
@carinede_oliveira

• Kelly Gomes – Idealizadora do Instituto Reaja Mulher Instagram pessoal: @kellygomessiilva

• Instituto Reaja Mulher Instagram: @reaja.mulheer

• ReajaCast – podcast Instagram: @reajacast

• Delegada Juliana Montes – Polícia Civil / DEAM / DGPAM Instagram: @ju.m.m.l

 

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!