Entre dores silenciosas, reconstruções inesperadas e amores que resistem, mulheres transformam a maternidade em um ato diário de coragem
Existe uma ideia romantizada da maternidade que, por muito tempo, foi repetida como verdade absoluta: a de que ser mãe nasce pronto dentro de uma mulher. Mas, na vida real, muitas maternidades são atravessadas por medo, solidão, culpa, violência, ausência, exaustão e recomeços que ninguém vê.
Para algumas mulheres, a maternidade não chegou acompanhada de estabilidade. Veio junto de perdas, inseguranças, separações, diagnósticos difíceis e da necessidade urgente de reconstruir a própria vida enquanto ainda tentavam cuidar de outras vidas.
Na edição de maio, mês em que tradicionalmente se exaltam flores, homenagens e versões idealizadas do amor materno, a Revista VP escolheu olhar para outro lugar: o das mães que precisaram encontrar força quando já não parecia haver mais nenhuma.
Histórias diferentes entre si, mas conectadas por algo em comum: a coragem de continuar.
Quando cuidar dos outros exige não desistir de si mesma
A presidente do Instituto Reaja Mulher, Kelly Gomes, conhece de perto os desafios de mulheres que tentam sobreviver emocionalmente enquanto seguem cuidando dos filhos. Mãe desde muito jovem, ela conta que a maternidade exigiu recomeços constantes.
“A maternidade me exigiu um recomeço muito cedo. Tive minha primeira filha aos 17 anos e, ao longo da vida, precisei me reconstruir muitas vezes como mulher, mãe e ser humano”, afirma.
Ao longo da trajetória marcada, inclusive, pela violência doméstica, Kelly diz que precisou reconstruir a própria autoestima e entender que cuidar dos filhos não significava abandonar a si mesma.
“O que precisei reconstruir dentro de mim foi a minha força, minha autoestima e a certeza de que eu não precisava desistir de mim para cuidar dos outros.”
Hoje, à frente do Instituto Reaja Mulher, ela acompanha histórias parecidas diariamente — e percebe algo que raramente é dito em voz alta.
“O que quase ninguém fala é que muitas mães se sentem cansadas, perdidas e até culpadas enquanto tentam se reconstruir. A sociedade cobra que a mulher seja forte o tempo todo, mas ninguém vê as noites de medo, o silêncio e as dores emocionais.”
A maternidade que nasce da escolha, do afeto e da ancestralidade
Já a história de Luciene Muller desconstrói completamente a ideia de que existe apenas uma forma legítima de ser mãe.
Sua maternidade não começou de maneira convencional. Não houve gestação, nem um momento exato que pudesse definir o início desse vínculo. Foi uma construção silenciosa, delicada e profundamente humana, atravessada por acolhimento, ancestralidade, ausência e escolha diária.
Jenny foi acolhida ainda criança pela sogra da escritora, Lúcia, ao lado do filho, que mais tarde se tornaria marido dela. Desde então, passou a ser criada dentro daquela casa, cercada por uma configuração familiar construída mais pelo amor do que pelos rótulos.
Quando conheceu o marido, Luciene também passou a fazer parte daquela história.
“Eu escolho ser mãe dela todos os dias, e ela aceitou o meu amor e me ter como mãe também”, conta.
Ao contrário do que muitos poderiam imaginar, a família nunca tentou apagar a história da mãe biológica de Jenny. Pelo contrário. A preocupação sempre foi preservar suas origens e impedir que ela crescesse sentindo abandono.
“A referência de mãe sempre foi a mãe biológica dela, mesmo sem a presença dela no nosso cotidiano, porque a história dessa mãe sempre foi respeitada por nós”, explica.
Foi nesse espaço de respeito e convivência compartilhada que sua maternidade começou a nascer. Aos poucos, sem imposição, passou a ocupar naturalmente o lugar de cuidado: acompanhava à escola, participava das festas de Dia das Mães e dividia com a sogra as responsabilidades e o afeto dedicados à menina.
“Eu entro com toda uma vulnerabilidade de filha, abraçada pela minha sogra Lúcia, que resolve dividir a maternidade da Jenny comigo”, relembra.
A relação entre as duas também carrega marcas profundas de ancestralidade. Órfã de mãe, Luciene encontrou justamente na sogra uma referência materna e um acolhimento que mudariam sua própria trajetória emocional.
Ela conta que chamava a sogra de mãe — e que foi ao lado dela que aprendeu, na prática, que maternidade também pode ser ensinada pelo afeto, pela permanência e pelo cuidado compartilhado.
Mesmo antes da morte da matriarca da família, Jenny dizia ter três mães: a biológica, Lúcia e ela. Uma construção rara, delicada e sustentada sem disputas, sem apagamentos e sem a necessidade de substituir ninguém.
Quando Lúcia faleceu, Luciene assumiu integralmente os cuidados da filha, atendendo, inclusive, a um pedido feito ainda no hospital.
“Minha sogra nos pediu para continuar. O que nem precisava de pedido”, afirma.
Hoje, ao olhar para sua trajetória, entende que maternidade não se resume ao sangue ou à biologia. Para ela, ser mãe é permanecer.
“Durante muito tempo achei que eu precisava alcançar alguma perfeição para merecer esse lugar. Hoje entendo que maternidade também mora no cuidado possível, na presença verdadeira e no amor construído no cotidiano.”
Sua história revela uma maternidade construída pela escolha diária de amar — e pela coragem de acolher, sem apagar origens, memórias e ancestralidades que também fazem parte de quem somos.
A luta silenciosa das mães atípicas
Na maternidade atípica, os recomeços também acontecem todos os dias.
Mãe de duas meninas autistas, a vereadora Fernanda Louback afirma que precisou se reconstruir em dois momentos decisivos: durante a separação do pai das filhas e após os diagnósticos.
Ela descreve uma realidade pouco compreendida por quem está de fora.
“A maternidade atípica nos ensina que o único caminho é continuar. Olhar pra frente e seguir. Vivemos altos e baixos num mesmo dia. O que quase ninguém vê é essa batalha. Ninguém imagina que muitas vezes estamos quebradas por dentro.”
Entre terapias, lutas por inclusão e os desafios diários, Fernanda afirma que aprendeu a enxergar a força das filhas em um mundo ainda despreparado para acolhê-las.
“Eu as vejo se esforçando em tentar pertencer em um mundo que não está preparado pra elas. Vejo a força, a pureza e o amor que transbordam.”
Recomeçar também é permanecer
Embora as histórias sejam diferentes, todas revelam algo em comum: a maternidade real quase nunca é linear. Ela exige adaptações constantes, coragem para continuar mesmo sem respostas e uma capacidade quase invisível de reconstrução.
Talvez por isso tantas mulheres se sintam exaustas tentando sustentar a imagem da mãe perfeita, quando, na verdade, muitas estão apenas tentando sobreviver emocionalmente enquanto seguem oferecendo colo, cuidado e amor.
No fim, recomeçar não significa ter todas as respostas. Significa permanecer.
E talvez exista uma das formas mais profundas de amor justamente aí: na mulher que, mesmo ferida, cansada ou insegura, ainda encontra forças para seguir em frente — e recomeçar quantas vezes forem necessárias.
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