°C °C
Taubaté, SP

Vale a pena “não herdar” a casa dos pais? O que essa estratégia significa no Brasil (e como reduzir impostos com planejamento sucessório)

Redação
Por: Marcelo Gusmão
20/02/2026 às 20:54 Atualizada em 10/03/2026 às 16:03
Vale a pena “não herdar” a casa dos pais? O que essa estratégia significa no Brasil (e como reduzir impostos com planejamento sucessório)

A internet tem repetido uma frase que chama atenção: “É melhor não herdar a casa dos seus pais”. A provocação viralizou após a publicação de uma matéria baseada na fala de uma consultora financeira espanhola, que defende que, em alguns casos, antecipar a organização do patrimônio pode reduzir impostos e preservar bens para as próximas gerações.

Mas será que isso funciona no Brasil?

A resposta correta é: depende — e muito. Porque, aqui, o custo de “herdar” não está apenas no imposto, mas também no inventário, no tempo, na documentação, nos conflitos familiares e na falta de planejamento.

A seguir, você vai entender o que realmente acontece quando um imóvel é transferido por herança, quais alternativas existem e como fazer isso com segurança e legalidade.

1) Herdar um imóvel não é “de graça”: o que pesa no bolso (e na família)

Quando os pais falecem e deixam um imóvel para os filhos, normalmente é necessário passar por um inventário, que pode ser judicial ou extrajudicial. Em ambos os casos, existem custos como:

  • ITCMD (Imposto sobre Transmissão Causa Mortis e Doação) — imposto estadual;

  • emolumentos de cartório, taxas e registros;

  • honorários advocatícios (quase sempre necessários);

  • custos indiretos: tempo, burocracia e risco de litígio.

Ou seja: mesmo que o imóvel “já seja da família”, a regularização da transferência pode se tornar cara e lenta, principalmente quando:

  • o imóvel está irregular;

  • há mais de um herdeiro;

  • existem dívidas;

  • falta documentação;

  • há divergência entre os herdeiros.

2) O ponto mais importante que quase ninguém fala: imposto na herança NÃO é imposto na venda

Aqui existe uma confusão muito comum:

  • uma coisa é o imposto para receber o imóvel (ITCMD);

  • outra coisa é o imposto caso o herdeiro venda o imóvel no futuro (ganho de capital).

No Brasil, quando você vende um imóvel, pode haver Imposto de Renda sobre ganho de capital, calculado pela diferença entre:

  • o valor de aquisição (que pode ser histórico, antigo e baixo); e

  • o valor de venda (normalmente atualizado e maior).

É por isso que o tempo influencia tanto: um imóvel comprado há décadas pode ter valorizado muito — e isso pode gerar imposto relevante no momento da venda. Essa lógica aparece na matéria ao dizer que “a chave é o tempo e a valorização do bem”.

3) Então por que alguém diria “é melhor não herdar”?

A ideia central da matéria espanhola é evitar uma transferência tradicional e, em vez disso, organizar o patrimônio antes, com mecanismos que reduzam custos e tragam previsibilidade.

No Brasil, o equivalente prático dessa intenção costuma ser:

a) Doação com reserva de usufruto — os pais doam a nua-propriedade aos filhos e mantêm o usufruto (direito de morar, usar ou alugar) enquanto vivos.

Vantagens

  • Pode evitar inventário do imóvel no futuro;

  • reduz o risco de bloqueio por disputas;

  • protege o direito de moradia dos pais (usufruto).

Pontos críticos

  • Há incidência de ITCMD sobre a doação (varia por estado);

  • exige escritura, registro e custo cartorial;

  • não resolve tudo se existirem outros bens e herdeiros sem acordo.

b) Holding patrimonial familiar (PJ) — a família integraliza o imóvel em uma empresa e organiza a sucessão por meio de quotas.

Vantagens

  • Pode organizar patrimônio, regras de uso, saída e governança;

  • facilita a sucessão por quotas;

  • pode trazer proteção e eficiência, dependendo do caso.

Pontos críticos

  • Tem custo de criação e manutenção;

  • exige contabilidade regular e estratégia bem estruturada;

  • não é “receita de bolo”.

c) Testamento + organização documental
Muita gente ignora, mas um testamento bem elaborado pode:

  • reduzir conflitos;

  • deixar regras claras;

  • evitar disputas e acelerar a solução.

4) A estrutura citada na matéria espanhola

Na matéria espanhola, é citada uma estrutura em que os pais mantêm a propriedade e o usufruto, enquanto o filho entra como beneficiário via “fundo”.

Essa é uma solução comum em alguns países, mas, no Brasil, o desenho equivalente é outro.

Aqui, as ferramentas mais utilizadas são:

  • doação com usufruto;

  • holding patrimonial;

  • testamento;

  • planejamento sucessório com cláusulas protetivas (inalienabilidade, impenhorabilidade etc., quando aplicável).

Ou seja: a intenção é parecida — planejar e reduzir atritos e custos —, mas o caminho jurídico é brasileiro.

5) Quando a herança “normal” ainda é a melhor opção?

A própria matéria reconhece que existem casos em que herdar diretamente continua sendo o mais sensato — e, no Brasil, isso é muito real.

Herdar pode ser o melhor caminho quando:

  • a família tem um único herdeiro;

  • o imóvel teve pouca valorização;

  • o objetivo é manter o imóvel por muitos anos, sem venda;

  • o patrimônio familiar é simples e bem documentado.

Nesses casos, criar estruturas complexas pode custar mais do que gerar economia.

6) Exemplo prático (vida real)

Imagine um imóvel comprado por R$ 80 mil há muitos anos e que hoje vale R$ 900 mil.

Cenário 1: herança tradicional

  • paga ITCMD, inventário e cartórios;

  • depois, se o herdeiro vender, pode pagar ganho de capital sobre grande valorização.

Cenário 2: planejamento sucessório em vida

  • pode haver ITCMD na doação (dependendo do estado e da estratégia);

  • pode reduzir o inventário do imóvel e deixar regras claras;

  • dependendo da modelagem, melhora a previsibilidade e a proteção familiar.

Moral do exemplo: não existe resposta padrão; existe cenário.

7) O que fazer agora: checklist rápido para famílias

Se você tem um imóvel de família e quer proteger o patrimônio, o melhor caminho começa com perguntas simples:

  • O imóvel está regular (registro, escritura, IPTU)?

  • Quantos herdeiros existem e qual é a relação entre eles?

  • O imóvel será vendido no futuro ou ficará na família?

  • Existe risco de conflito, união estável não formalizada, dívidas ou empresa familiar?

  • Faz sentido uma doação com usufruto ou uma holding?

A matéria espanhola alerta, com razão: essas estratégias exigem análise especializada, e os custos precisam ser comparados com a economia esperada.

Dizer que “é melhor não herdar a casa dos pais” é uma frase forte — e útil para chamar atenção —, mas não pode ser aplicada automaticamente no Brasil.

O que realmente costuma ser melhor é isto:

  • planejar antes;

  • regularizar a documentação;

  • escolher o instrumento jurídico certo para a família;

  • reduzir riscos de inventário caro, conflitos e perda patrimonial.

Patrimônio não é só bem: é estratégia, proteção e continuidade.

Herdar pode sair caro? Pode — mas o risco maior é herdar sem planejamento.

Inventário, ITCMD, cartórios e possíveis conflitos familiares podem transformar um patrimônio em dor de cabeça. A solução não é “não herdar”, e sim organizar a sucessão em vida, com alternativas como doação com usufruto, holding familiar e testamento, sempre com apoio técnico e análise do caso.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar!