Há empresas que crescem como quem empilha caixas: mais volume, mais pedidos, mais caminhões. E há empresas que crescem como quem muda de pele: por dentro, no método, na cultura e na coragem de trocar “achismo” por padrão, e padrão por excelência. A história da Extracrill Tintas e Complementos tem muito dessa segunda espécie. E, no centro dela, entra em cena Luca Cabral Piola, CEO e sócio-administrador, conduzindo uma indústria regional com mentalidade de multinacional, sem perder o caráter de empresa familiar.
Luca fala rápido porque o tempo, na fábrica, não pede licença. Ele também pede desculpas com frequência, como quem carrega o peso de querer responder “do jeito certo”: pensando, revisando, refletindo. Não é insegurança; é disciplina. Em um setor movido por margem, logística e matéria-prima volátil, disciplina não é virtude estética, é sobrevivência. E, para ele, disciplina tem nome e fundamento: propósito, fé, responsabilidade e união.
A Extracrill nasceu do esforço dos pais e hoje é conduzida pelos filhos, seus irmãos Jéssica, Gabriel e Daniel, estando lado a lado. “Gestão compartilhada”, para Luca, não é discurso. É arquitetura. A empresa foi organizada em quatro grandes blocos, com autonomia clara para cada responsável. Quando o assunto é decisão societária, existe um “livro de mandamentos” interno, uma espécie de constituição prática do negócio: dois votos vencem um. Se ainda assim houver divergência total, a
decisão final recai sobre o CEO. Podemos traduzir como uma família, quatro blocos e uma regra simples: dois votos vencem um.
Mas há algo ainda mais revelador no que ele descreve: a família não quer que o comando seja um trono fixo; discute-se até a possibilidade de rodízio da presidência por ciclos, para que cada sócio sinta “a dor” do outro setor. A lógica é rara: não é apenas dividir poder, é dividir a compreensão do risco.
Antes de ser marca, a empresa foi estratégia. O senhor Adriano, pai de Luca, percebeu que, no universo de produtos de “primeiro preço”, os grandes varejistas já tinham seus próprios nomes e fornecedores. A brecha estava no que poucos faziam: private label. A fábrica ganhou volume, ganhou chão, ganhou musculatura, mas sem expandir reputação. Então, da terceirização foram para a marca e a virada da pulverização.
A virada veio quando Luca, ainda no fim da faculdade, decidiu levar para dentro da operação aquilo que muitos aprendem em sala e poucos têm coragem de aplicar na vida real: estratégia e risco. Ele enxergou o perigo de depender de poucas contas grandes. “Se você perde 20% dos seus maiores clientes, você sente uma pancada.” A solução foi construir um faturamento pulverizado, com mais clientes ativos e maior presença no varejo. E o destino, em sua forma mais objetiva, testou a tese:
quando uma grande conta não aceitou reajuste e saiu, a base pulverizada já estava pronta para ocupar o espaço. Não foi sorte. Foi método, e timing.
Ele admite um aprendizado duro desse período: ao reposicionar marca e portfólio, teria sido mais inteligente separar com clareza o que é produto de preço e o que é produto de valor, evitando que a percepção do mercado “puxasse para baixo” uma marca que queria subir. “Nós vencemos, mas o caminho foi mais árduo.” Em linguagem de negócios: quando você muda o posicionamento sem redesenhar a arquitetura de marcas, você paga com tempo, energia e convencimento.
Existe um momento em que toda indústria deixa de ser apenas produção e vira, de fato, sistema. Luca descreve esse momento como uma mudança de 180 graus: procedimentos, repetibilidade, rastreabilidade. E, junto com isso, uma nova realidade: manifestos, licenças ambientais, auditorias, órgãos fiscalizadores, documentação de resíduos. O que antes era “fazer funcionar” vira “fazer
funcionar sempre, do mesmo jeito, com prova”.
Na prática, esse tipo de salto cria dois efeitos: ele exige mais, e eleva o patamar. Não é glamour. É custo, é esforço e é cobrança. Mas é também maturidade industrial. A empresa passa a competir não apenas no preço dos produtos, e sim na confiança do lojista e do aplicador.
A Extracrill sustenta uma cultura que Luca descreve com orgulho: valorizar quem começou junto. Plano de carreira, cargos e salários, treinamento, investimento em gente. Ao mesmo tempo, quando a área pede conhecimento específico, a empresa traz profissionais do mercado. A regra é simples e inflexível: os valores não entram em negociação.
Comprometimento, responsabilidade, honestidade, caráter, respeito. Ele repete como quem não quer que isso fique no ar: dentro da empresa, a pessoa tem que estar “de corpo e alma”, vestindo a camisa. E essa cultura, segundo ele, explica um dos ativos mais difíceis de copiar: equipe que atravessa os “momentos variados” do negócio sem se desmontar.
Em junho de 2023, Luca junto aos sócios tomou uma decisão que separa empresas que crescem de empresas que dominam: trouxe para dentro da estrutura um gerente comercial com vivência em multinacionais. Metodologias que antes eram vistas como “coisa de grande” passaram a ser adaptadas para uma empresa regional: treinamento técnico, eventos, demonstração de produto, ações com balconistas, materiais de PDV. E quando a concorrência entendeu o jogo, “a gente já estava bem
à frente”.
A consequência é o tipo de frase que toda revista gosta de imprimir, mas poucas conseguem sustentar sem exagero: ganho de participação de mercado com estratégia replicável.
Há um caso que traduz a tese. O “cimento queimado” virou moda, e a Extracrill decidiu transformar o modismo em experiência técnica. Com um pintor profissional especializado em efeitos decorativos, a empresa realiza treinamentos presenciais com lojistas e profissionais. O rito é quase cinematográfico: evento, demonstração na prática, conversa técnica, café ou jantar. E então o resultado aparece do jeito mais convincente possível: fila de pintores, produto girando, serviço sendo vendido, e a marca ganhando um lugar que propaganda nenhuma compra sozinha, o lugar da recomendação.
Nas redes, Luca é direto: o que converte é prova social. Consumidor que usa, grava, manda vídeo. Profissional que testa, valida, compara com líderes. A marca não tenta ser apenas conhecida; ela tenta ser percebida como premium, porque percepção, nesse mercado, é a diferença entre “mais uma tinta” e “tinta que eu confio”.
Enquanto a marca fala com o mercado, a gestão fala
com a realidade. Luca descreve uma empresa de postura conservadora: estoque com previsão de três meses, leitura de dados, comparação com anos anteriores, pesquisa e planejamento trimestral. E uma inteligência prática que poucos explicitam: o primeiro trimestre do ano aperta o bolso do consumidor (IPTU, IPVA, escola). Logo, aperta o varejo. Logo, exige ajuste de crédito. A empresa antecipa o ciclo e desenha soluções antes do problema chegar.
Na validação de novos produtos, a Extracrill opera com critérios: seguir normas aplicáveis, e quando não há norma, comparar com líderes, com teste de fábrica, laboratório e campo. Luca descreve um processo que combina ABNT, benchmark e avaliação cega com profissionais, além de testes em loja e amostras distribuídas para pintores parceiros. A validação volta em feedback, relato e uso real. E o elogio mais poderoso, segundo ele, é quando um aplicador diz: “isso aqui se iguala, ou supera, marca grande”.
Ele cita como vitrines da empresa as linhas premium: impermeabilizantes, tinta emborrachada, acrílicas premium (fosco, acetinado, semibrilho), linha para piso, esmalte base água. E a promessa de futuro vem com data: novos lançamentos a partir de 2026.
A história da Extracrill, quando bem contada, não é apenas industrial. É humana.
Um CEO que atravessa novembro e dezembro “como
coisa de doido”, sustentado por fé e rotina, e uma família que escolheu transformar convivência em governança. Uma empresa regional que decidiu competir em método, padrão e cultura, e, por isso, passou a disputar liderança com ambição declarada: consolidar o primeiro lugar no estado e, depois, olhar para fora.
Em um país em que tantos negócios crescem sem coluna vertebral, a Extracrill parece ter entendido o que realmente sustenta uma indústria: processo que repete, gente que permanece e um propósito que não muda quando o mercado muda. Isso, no final, é o tipo de vantagem que não se compra. Se constrói. E Luca Piola está, claramente, construindo.
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