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Taubaté, SP

Márcia Queiroz, a professora que mudou destinos.

Redação
Por: Marcelo Gusmão
16/03/2026 às 16:36 Atualizada em 04/06/2026 às 21:36
Márcia Queiroz, a professora que mudou destinos.

A educadora que transformou a matemática em ferramenta de esperança, inspiração e novos caminhos para gerações de alunos.

Quando o presidente do Conselho Editorial da Revista VP, Júlio Sobral, fala sobre sua trajetória, há um nome que sempre surge com gratidão: o da professora Márcia Queiroz.

Foi ainda jovem, em suas aulas, que ele descobriu não apenas o interesse pela matemática, mas também o poder transformador da educação. Inspirado por ela, seguiria mais tarde na área e se formaria em matemática.

A emoção ao lembrar da professora permanece intacta até hoje — como ele próprio relata no depoimento ao lado.

Histórias como essa ajudam a explicar por que a trajetória da educadora ultrapassa os limites da sala de aula.

Com mais de 25 anos dedicados ao ensino, Márcia construiu uma carreira marcada pela convicção de que educar é, antes de tudo, um ato de amor. Curiosamente, foi o próprio ensino que a escolheu antes mesmo de ela escolher a matemática.

“A educação me escolheu. A matemática veio depois”, resume.

Ainda menina, no subúrbio do Rio de Janeiro, ela já demonstrava um talento natural para explicar conteúdos aos colegas. Nas brincadeiras de rua, a “escolinha” era presença constante — e Márcia assumia, espontaneamente, o papel de professora.

“Eu gostava de ajudar e ensinava todas as matérias. Com o tempo percebi que o gosto por ensinar matemática e língua portuguesa era predominante. Mas a matemática sempre me dava mais prazer.”

Da sala de aula ao propósito

Ao longo de sua trajetória em escolas públicas e privadas, incluindo a Fundação de Apoio à Escola Técnica (Faetec), a professora consolidou uma visão muito clara sobre o papel da educação.

Para ela, ensinar não se resume a transmitir conteúdos.

“Não se pode falar de educação sem falar de amor. A sala de aula me permitiu ser uma educadora de verdade, alguém que pode contribuir para transformar a realidade das pessoas.”

Essa filosofia também influenciou sua decisão de trabalhar principalmente com alunos do ensino fundamental.

“Ali é um solo fértil para ajudar na formação de cidadãos conscientes e responsáveis.”

Histórias que confirmam o impacto

Ao longo de mais de duas décadas de carreira, Márcia viu centenas de alunos seguirem caminhos diferentes — engenharia, jornalismo, carreira militar, artes.

Algumas dessas histórias ficaram especialmente marcadas em sua memória.

Uma delas é a de Flávio, ex-aluno que hoje vive em Dublin, na Irlanda. Negro, criado em comunidade e órfão de mãe, ele encontrou na professora uma referência que ultrapassava o papel tradicional da escola.

Segundo Márcia, os dois acabaram criando um vínculo profundo.

“Nós nos adotamos.”

Hoje, ao acompanhar a trajetória do antigo aluno no exterior, ela enxerga ali uma das
maiores recompensas da profissão.

“Receber até hoje o carinho e o reconhecimento deles é afirmar que tudo valeu a pena.”

Mais recentemente, outro encontro inesperado também marcou sua caminhada.

Em um episódio que ela descreve como um desses “esbarrões da vida”, conheceu um menino que havia sido deixado pela própria mãe na porta de um mercado. Ao conversar com ele, ofereceu uma bolsa em um curso de xadrez.

O garoto, então, tirou da mochila alguns desenhos feitos em folhas de pão.

O talento estava ali.

Márcia decidiu incentivá-lo a estudar desenho. Quatro anos depois, ele concluiu sua
formação.

“São essas histórias que nos lembram por que escolhemos educar.”

O nascimento da Casa da Matemática

Foi a inquietação diante das limitações do ensino tradicional que levou a professora a criar um projeto próprio. Ao longo dos anos, ela percebeu que as escolas raramente possuíam espaços voltados à experimentação matemática.

Com um acervo crescente de jogos, experimentos e materiais pedagógicos — muitos criados junto com seus próprios alunos — surgiu a ideia de construir um ambiente onde a matemática pudesse ser vivida de forma concreta.

Em 2015, ao produzir a exposição “Simetria – matemática com muita arte”, na Universidade Federal Fluminense, ela percebeu que havia criado algo maior do que imaginava.

Assim nasceu o primeiro espaço dedicado ao projeto, inicialmente em uma pequena sala no Méier. Com o tempo, a iniciativa cresceu, ganhou novas salas, auditório e uma rede de colaboradores.

Hoje, o projeto evoluiu para a Casa da Matemática, um centro que conecta ensino, ciência e criatividade. No espaço, a matemática dialoga com outras áreas do conhecimento por meio de atividades como robótica, xadrez, desenho e pintura, ampliando as formas de aprendizagem e estimulando raciocínio, imaginação e sensibilidade artística.

Ali, o aprendizado segue um princípio simples, mas poderoso, que virou slogan do projeto:

“Aqui a matemática tem cor, movimento e sabor.”

“A matemática precisa fazer sentido e ter diversão. Quero mostrar suas conexões com o mundo”, explica.

O desafio de manter o sonho.

Após se aposentar da Faetec, em 2021, Márcia mudou-se para Niterói e precisou recomeçar praticamente do zero.

“Dormi professora e acordei empresária”, conta.

Hoje, além de educadora, ela dedica-se integralmente à consolidação da Casa da
Matemática, espaço que une ensino, ciência e criatividade e que busca ampliar o acesso de crianças e jovens a experiências educacionais inovadoras.

Sempre que possível, o projeto também oferece bolsas de estudo, acreditando que o acesso ao conhecimento pode transformar trajetórias.

A educadora também destaca que parcerias com empresas e apoiadores podem ajudar a ampliar o alcance da iniciativa e permitir que mais estudantes tenham acesso às atividades desenvolvidas no espaço.

Muito além da matemática. 

Fora da sala de aula, a professora mantém uma rotina igualmente ativa. Apaixonada por corrida de rua, música, encontros com amigos e pela vida perto do mar, ela encontra na espiritualidade o equilíbrio necessário para seguir.

E ainda guarda um sonho: criar uma ONG que permita ampliar o acesso ao conhecimento.

“Quero que um número cada vez maior de crianças e jovens possa desfrutar do que tenho para compartilhar.”

Para as novas gerações — especialmente meninas que ainda se sentem inseguras diante da ciência e da matemática — ela deixa uma mensagem direta.

“Ser feliz é fazer o que se ama e ser reconhecido por isso. Quem escolhe o magistério precisa amar profundamente o que faz.”

Porque, como sua própria trajetória demonstra, ensinar não é apenas transmitir
conhecimento. É abrir horizontes onde antes havia apenas dúvidas.

 

 

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